Falando em história da tecnologia educacional… Comenius!

Lembrando de uma postagem de algumas semanas atrás, sobre a relevância da História nos estudos da Educação e Tecnologia: acaba de sair uma coautoria minha com os queridos Thiago Cabrera e Márcio Lemgruber: “Comenius, tecnologia e educação: uma perspectiva mumfordiana“, na revista Intersaberes, número especial “Educação e filosofia da tecnologia: perspectiva histórica e debates contemporâneos“.

Eis a proposta:

Comenius é apontado, nos livros de História da Educação, como o fundador da pedagogia moderna. Em sua Didactica Magna, publicada em latim em 1657, o autor propôs uma forma de organização detalhada como arcabouço para um sistema educacional inclusivo, um modelo baseado em metáforas e analogias relacionadas à produção manufatureira em expansão em sua época. Este artigo discute a proposta de
Comenius como uma solução técnica para a democratização da educação que se mostra uma importante precursora de formas de pensar a relação entre a educação e a tecnologia na contemporaneidade. O texto examina aspectos da contribuição de Comenius a partir de uma perspectiva inspirada na obra de Lewis Mumford, historiador e filósofo da tecnologia. Em particular, toma o conceito mumfordiano de “megamáquina” para discutir a “didacografia” comeniana, que é apresentada na Didactica em uma analogia detalhada entre a tipografia e a sala de aula. Nessa ótica, o sistema educacional de Comenius seria uma megamáquina composta essencialmente de seres humanos mecanizados, embora não prescinda de artefatos como modelos ou mesmo antecipe a perspectiva de mecanizações mais radicais.

Comenius é um personagem fascinante, um bom “lugar” para começar a desvelar enraizamentos históricos de ideias que sustentam a tecnologia educacional contemporânea, tomando metáforas como eixo teórico fundamental.

Baixe aqui o artigo completo.

Livro *Metaphors of Ed Tech*

Capa do livro

Acaba de sair o novo livro de Martin Weller, Metaphors of Ed Tech, publicado pela Athabasca University Press e disponível para ler on-line aqui e baixar aqui. Vinha aguardando essa publicação desde o anúncio inicial (já não me lembro exatamente quando), pois parecer ser diretamente relevante a estudos que venho conduzindo desde 2017.

Baixei e comecei a ler (levarei um tempo para finalizar, devido a outras demandas, mas ontem consegui dar conta da introdução e da conclusão), e a introdução sugere que Weller seguiu a linha de uma proposta que comentei em uma postagem anterior: o uso criativo e lúdico de metáforas. Ele anuncia o seguinte (p. 12):

This is not primarily a book about metaphors, or metaphorical reasoning, but a book of metaphors.

Tenho alguns “livros de metáforas” (nenhum relativo a tecnologias educacionais) bastante divertidos – a leitura, então, parece promissora.

Dei uma olhada nas referências também, e identifiquei alguns textos que acho fundamentais nos estudos da metáfora na educação – como este (1998). A obra seminal de Lakoff e Johnson também está lá, na fundamentação teórica (em português, a excelente tradução do Mercado das Letras está indisponível aqui, mas encontrei aqui, ainda que a um preço meio assustador – como todos os livros no momento).

O autor parece ter privilegiado uma perspectiva instrumental da metáfora como ferramenta para o uso e implantação de tecnologias na educação. A palavra “ferramenta/s” (tool/s) aparece 71 vezes nas 199 páginas do livro (incluindo nessa contagem o material pré e pós-textual). A ver o que isso me dirá.

Dando uma diagonal rápida, vejo que Weller articula o livro a seu blog (um projeto que ele mantém há muitos anos) e a produções anteriores (em particular, seu livro The Digital Scholar). Também me parece haver um foco na Educação Superior, em particular, a distância (mais uma articulação do autor, aqui, a seu local de atuação), e um capítulo dedicado ao online pivot, que chamei de “virada on-line” no início da pandemia.

Tentarei ler logo (não deverá ser difícil, pois a escrita dele é sempre objetiva e fluente) e resenhar.

Poe, argila e escrita acadêmica (não necessariamente nessa ordem)

Imagem de Jochen Haltern @ Pixabay

Estamos (o grupo DEdTec) com um livro no prelo intitulado Educação, tecnologia e ficção: da distopia à esperança, produto de discussões que tivemos ao longo da pandemia (que ainda não acabou, apesar dos diversos decretos). Para mim, mais importante do que o produto foi o processo de criá-lo: um exercício de escrita colaborativa.

Na experiência, ficou claro que escrever é sempre algo que pode trazer diferentes medidas de angústia, um certo “sofrimento” (diferentes manifestações do proverbial “sangue, suor e lágrimas”), até, como qualquer trabalho criativo. Contudo, é muito difícil desconstruir a mítica do “gênio” e da noção de que obras inteiras sairiam prontas e perfeitas da mente de seu criador (na música, temos sempre citadas as partituras de Mozart, que têm pouquíssimos rabiscos, mudanças ou correções). Acho lamentável e muito destrutivo para qualquer autor (iniciante ou não) imaginar, romanticamente, que um texto simplesmente “brota” ou se “manifesta” completo quando pena é lançada ao papel sob a luz de velas…

Edgar Allan Poe (merchandise à venda em múltiplos sites – porque nada escapa da mercantilização)

Em The Philosophy of Composition, ensaio de 1846, o escritor Edgar Allan Poe reconta como compôs sua obra (talvez) mais conhecida: o poema The Raven (aqui em tradução, para o português, de Machado de Assis). É uma lindeza de texto, que me foi apresentado por minha filha (ao longo de sua formação, ela me re-forma). Achei uma leitura deliciosa para quem gosta de bastidores, mesmo inventados (minha primeira pergunta para ela foi se o texto seria, também, ficcional).

Enfim, Poe começa o texto dizendo que seu processo de composição é diferente do que seria o “usual”, e situa a escrita do ensaio da seguinte forma:

I have often thought how interesting a magazine paper might be written by any author who would – that is to say, who could – detail, step by step, the processes by which any one of his compositions attained its ultimate point of completion. Why such a paper has never been given to the world, I am much at a loss to say – but, perhaps, the autorial vanity has had more to do with the omission than any other cause. Most writers – poets in special – prefer having it understood that they compose by a species of fine frenzy – an ecstatic intuition – and would positively shudder at letting the public take a peep behind the scenes, at the elaborate and vacillating crudities of thought – at the true purposes seized only at the last moment – at the innumerable glimpses of idea that arrived not at their maturity of full view – at the fully-matured fancies discarded in despair as unmanageable – at the cautious selections and rejections – at the painful erasures and interpolations – in a word, at the wheels and pinions – the tackle for scene-shifting – the step-ladders, and demon-traps – the cock’s feathers, the red paint and the black patches, which, in ninety-nine cases out of a hundred, constitute the properties of the literary histrio.

Poe se refere a escritores e poetas (“em particular”), em uma descrição (que não poderia deixar de ser poética) das idas e vindas do trabalho criativo, prenunciando a apresentação detalhada (ainda que possa ser fictícia) de seus próprios processos. Outro dia em que tenha tempo, buscarei uma tradução (seria um enorme atrevimento meu tentar traduzir qualquer trecho deste texto).

A questão é que imagens românticas como a que pintei acima apenas causam angústia e são, assim, improdutivas. Na vida acadêmica, produzir não é apenas um imperativo burocrático de avaliações de pesquisa, mas parte integrante do que fazemos. Precisamos trocar ideias. Com isso, colocá-las no papel (hoje em dia, na tela) deveria ser algo corriqueiro. Manter um blog, por exemplo, pode ser um exercício com duplo propósito: por um lado, desenvolver a escrita em si; por outro, praticar uma forma importante de desapego, já que nenhum texto, mesmo (pretensamente, ou por força das circunstâncias) finalizado, é perfeito

(E eu, pelo menos, além de aceitar, de bom grado, imperfeições – grandes ou pequenas, como aqueles pequenos escorregões que mesmo editores muito experientes podem deixar escapar -, sempre me reservo o direito de mudar de ideia com o tempo).

Imagem de Nicole @ Pixabay

Acho importante repensar essas ideias herdadas e compreender que escrever não é “psicografar” (escrever dessa forma na academia me pareceria perigosamente próximo ao plágio). Uma analogia que comecei a explorar para fazer essa discussão com orientandos é a de que escrever um texto é como esculpir uma cabeça em argila (algo adorável que experimentei fazer quando era doutoranda, e que gostaria de retomar um dia). Creio que nenhum escultor cria um nariz ou orelha “perfeitos” isoladamente do resto da cabeça: a cabeça vai tomando forma em um processo iterativo, de retorno a cada parte à medida que o todo vai se formando na argila.

Esculpindo uma cabeça em argila

Este vídeo é um pouco longo, mas mostra o que descrevi acima (acho que vale assistir, mesmo em velocidade acelerada)

Da mesma forma que seria improdutivo (aliás, acho que impossível) produzir a escultura simplesmente juntando partes criadas isoladamente (a menos que se trate do Sr. Cabeça de Batata), a escrita de um texto tenderia a ficar “emperrada” na busca pela frase ou pelo parágrafo perfeitos. Com isso, acho que é preciso uma boa dose de desprendimento e alguma coragem para criar algo que poderá parecer desproporcional, até “monstruoso” (inicialmente, pelo menos), mas que, aos poucos, originará algo significativo, talvez até belo. Na verdade, “monstruosa” é a busca inglória por uma perfeição inalcançável.

Nesse espírito, e ciente de que metáforas e analogias tendem a se “quebrar” quando postas sob uma lupa, termino meu próprio exercício de hoje (mesmo que acabe passando novamente por constrangimentos acadêmicos).

Por que trazer a história para a Educação e Tecnologia?

Este é um daqueles posts que ficaram abandonados desde que saí das redes sociais no ano passado, então aqui vai: uma recomendação de um artigo curto de Neil Selwyn em seu blog, intitulado “The ‘wonderful usefulness’ of historical perspectives on EdTech” (A “maravilhosa utilidade” das perspectivas históricas da tecnologia educacional”).

A ideia é bem simples: apesar do otimismo em torno das novidades da indústria da EdTech e suas visões luminosas para o futuro da educação, não podemos deixar de lado o passado, pois ele tem muito a nos ensinar…

Esse tem sido o mote que sustenta o trabalho de Audrey Watters (ou sustentou – recentemente, a escritora abdicou de seu título de Cassandra da EdTech – como sempre, a vida dá jeito de se impor sobre nossos planos, escolhas e desejos… De qualquer jeito, seu excelente blog continua no ar). Como destaca Selwyn, há relativamente pouca pesquisa de cunho histórico na área dos Estudos Críticos da Educação e Tecnologia. No artigo, o autor reúne alguns trabalhos e explora os argumentos de Johannes Westberg em torno da importância da pesquisa histórica na educação. O artigo de Westberg está disponível aqui.

Estou ainda coletando informações sobre pesquisa relevante conduzida no país (há!) – em breve devo ter, com o auxílio de uma orientanda, uma bibliografia para compartilhar aqui.

O Futuro da Mente: entre a tecnologia e a arte (respiro e digressão)

Participei (como ouvinte) ontem das 1as Jornadas Luso-Brasileiras de Pensamento Contemporâneo, intituladas O Futuro da Mente: entre a tecnologia e a arte, um evento on-line organizado por um grupo de pesquisadores do Brasil e de Portugal, incluindo meu colega de departamento Ralph Bannell.

O programa do evento está disponível aqui, e os resumos das apresentações, aqui. Entre elas, a apresentação de Thiago Cabrera, também meu colega de departamento e membro do DEdTec, apresentou as bases, partindo da Fenomenologia de Husserl, em particular, sobre as quais vem explorando a potência do ficcional audiovisual, um assunto que me interessa.

Em várias das falas, foram mencionados ilustrações e exemplos do domínio do sonoro e/ou musical, e isso sempre me chama a atenção, junto com argumentação que levante objeções à concepção do digital como imaterial. Focalizando na materialidade do digital, um dos palestrantes sugeriu que a tela touch, ao ser tocada, não oferece resistência. Para mim, porém, a inclusão de sons nessa operação modifica a experiência de utilizar esse tipo de tela significativamente (eu sou daquelas pessoas chatas que gostam de experimentar com diferentes efeitos sonoros na digitação). Lembrei que saí do meu doutorado com a ideia de que todos os sentidos estão envolvidos na experiência musical (do sonoro, de forma geral), ou seja, não é apenas a audição – na época, comecei a ler sobre as experiências de músicos surdos e de pessoas com sinestesia, e, muitos anos depois, já em outras trilhas, encontrei David le Breton caminhando nessa direção em seu Antropologia dos sentidos. Fiquei então pensando que talvez toda experiência “estética” seja de todos os sentidos, ou seja, que a nossa divisão entre os sentidos é meio arbitrária, ainda que possa ser necessária – isso apimentaria qualquer discussão sobre a “natureza” do “virtual” e do “ciberespaço” (veja o capítulo 14 aqui para um argumento sustentando que se trata de uma “alucinação consensual acadêmica”), e me parece relevante em tempos de VR e AR.

Achei também interessante ver a velha discussão (para algumas gentes que conheci no passado, incluindo meu orientador de doutorado, an old chestnut – adoro essa expressão) em torno do que seria música (com uma referência a Susanne Langer e seu Philosophy in a New Key, a primeira recomendação de leitura que o orientador me passou) dar sinais de que ainda vai muito bem, obrigada. Acho que é um assunto bem difícil de abordar sem um mínimo de jargão teórico da musicologia – não como tecnicalidade esvaziada, mas por aquilo de conceitual que pode apontar (ocultar?), e que é necessário (creio) para nos levar para além de um “senso comum” quase invariavelmente baseado em preferências pessoais. Mas admito que possa estar sendo excessivamente preciosista.

Enfim, foi um dia excelente de respiro intelectual que me tirou de um cotidiano ultimamente repleto de tarefas administrativas.

Em tempo: acho que vale a pena ficar de olho no blog da Camila Leporace, uma das mediadoras, caso apareça lá uma resenha detalhada das discussões.

Apresentações de membros do DEdTec na 23rd Media Ecology Association Convention

Entre 7 e 11 de julho, ocorreu no campus da PUC-Rio a 23rd Media Ecology Association Convention, organizada localmente por uma comissão liderada pela Profa. Adriana Braga, do Dept. de Comunicação da PUC-Rio, e contando com a colaboração dos Profs. Rosália Duarte, da Educação, e Edgar Lyra, da Filosofia, bem como um grupo (bem animado!) de voluntários estudantes da instituição. Tive uma participação muito limitada nessa organização (pois acabara de assumir a coordenação do PPGE), praticamente reduzida a uma fala inicial de boas-vindas da parte da comissão organizadora local. Fotos do evento estão disponíveis na Página da MEA no Facebook, e o livro de resumos está disponível aqui.

Tivemos duas apresentações (em painel que organizei com a Profa. Mylene Mizrahi) do DEdTec: das queridas Cíntia Barreto (cuja pesquisa de mestrado focaliza os podcasts ditos “educativos” na podosfera nacional) e Camilla Borges (cuja pesquisa de mestrado consiste em um estudo do fenômeno dos professores influencers – uma autoetnografia, já que Camilla faz parte dessa comunidade, sendo conhecida como @profmillaborges e @patroa). As apresentações das duas foram muito bem recebidas: houve uma conversa animada ao final, e ambas receberam elogios de participantes pela consistência, clareza e fluência de suas falas (#orgulhodeorientadora!)

Eis os resumos dos trabalhos apresentados:

Tendências da podosfera “educativa” brasileira (Cíntia)

Com cerca de 34,6 milhões de ouvintes, o Brasil ocupa hoje o segundo lugar no ranking dos países que mais consomem podcasts, atrás apenas dos EUA (ABPod, 2021). Muitos aderiram a esta mídia a partir da pandemia da COVID-19, alegando que o formato intimista contribuía para que se sentissem menos sozinhos em contexto de isolamento social (Globo, 2021). Além de entretenimento e informação, os podcasts têm como um de seus principais objetivos declarados, tanto por produtores, quanto por consumidores, promover a aprendizagem. De fato, a podosfera brasileira é rica em ofertas categorizadas como “educativas”, mas esses podcasts não são, via de regra, produzidos por instituições educacionais. Esta comunicação apresentará reflexões fundamentadas em uma pesquisa de mestrado que objetiva compreender, a partir de um recorte da podosfera, como são constituídos os podcasts categorizados como “educativos”. A produção e o consumo de podcasts figuram de modo promissor na literatura acadêmica relativa a usos em contextos da educação formal, mas, diante da vasta oferta de podcasts caracterizados como “educativos”, a pesquisa aborda questões relativas à sua produção, seus produtores e seus propósitos de produção, bem com o conteúdo desses podcasts. Tomando como empiria os próprios podcasts, bem como material promocional de sites e comentários em fóruns de discussão, serão apresentados achados preliminares de uma análise que focaliza gêneros e temas, com o intuito de identificar tendências e preferências relativas às formas nas quais, no atual contexto de midiatização da educação, concebe-se aquilo que se qualifica como “educativo”.

REFERÊNCIAS
ABPod. PodPesquisa 2020-2021. Disponível em: https://abpod.org/wp-content/uploads/2021/10/Podpesquisa-Produtor-2020-2021_Abpod-Resultado- ATUALIZADO.pdf. Associação Brasileira de Podcasters, 2021. Acesso em: 25 fev. 2022.
GLOBO. Podcasts e a crescente presença entre os brasileiros. Disponível em: https://gente.globo.com/pesquisa-infografico-podcasts-e-a-crescente-presenca-entre-os-brasileiros/. Gente, 2021. Acesso em 25 fev. 2022.

Reflexões sobre usos de storytelling por professores influencers (Camilla)

As mídias vêm ganhando cada vez mais espaço em nossas vidas, contribuindo para profundas transformações em nossas formas de adquirir e produzir conhecimento. Nesse contexto, o ensino e aprendizagem vêm escapando aos confins das salas de aula formais para ocupar outros espaços que vêm sendo utilizados maciçamente para fins educativos: as redes sociais. Esta comunicação consiste em um recorte de uma pesquisa de mestrado cujo objetivo geral é compreender como se constitui um novo tipo de professor surgido no atual contexto de midiatização da educação (Rawolle; Lingard, 2014): o professor influencer. Esses professores atuam em um cenário no qual muitos conseguem atrair números expressivos de alunos/seguidores, alcançando, em alguns casos, o status de celebridade. Professores influencers trabalham em redes sociais produzindo materiais pedagógicos a partir da utilização de técnicas de storytelling. Trata-se, aqui, segundo Couldry (2008), de um conjunto de técnicas que propicia a contação, a troca e o armazenamento de narrativas pessoais na Web. Diante da pluralidade das mídias utilizadas, essas narrativas difundem-se de formas distintas que permitem sua retransmissão e reutilização. A pesquisa baseia-se em uma etnografia virtual conduzida pela primeira autora no contexto do ensino de português e redação nas plataformas Instagram e YouTube. Sendo nativa desse campo, utiliza-se de storytelling como técnica e como vivência, com o intuito de promover conexões intelectuais, afetivas e emocionais com seus alunos/seguidores. Esta comunicação irá apresentar reflexões relativas aos usos feitos de storytelling por professores que, ao protagonizar narrativas articuladas nos conteúdos que exibem nas redes, reconstroem-se como sujeitos. 

REFERÊNCIAS

COULDRY, Nick. Mediatization or mediation? Alternative understandings of the emergent space of digital storytelling. New Media and Society 10: 373–391, 2008.

RAWOLLE, S.; LINGARD, B. Mediatization and education: a sociological account. In: LUNDBY, K. (Org.) Mediatization of Communication. Handbooks of Communication Science v. 21. (p. 595-612). Berlin: De Gruyter Mouton, 2014.

Indo e vindo

by KRiemer @ Pixabay

Desde a última postagem neste blog, de novembro do ano passado, retirei-me de todas as redes sociais nas quais tinha presença (em alguns casos, deletei o perfil, mesmo; em outros, apenas deletei os aplicativos). Em parte, creio que foi uma saturação de telas durante a pandemia (que, aliás, ainda não acabou, mesmo diante de tantos decretos nesse sentido). Lives, lives e mais lives. Aulas e reuniões no Zoom. Enfim, overdose.

A Web está cheia de matérias e ensaios sobre gente que abandona redes sociais (você poder confirmar isso aqui com duas buscas bem toscas: em inglêsem português), então não vou me estender comentando sobre prós e contras desse “abandono” (na verdade, até agora, só vejo prós). Vou apenas dizer que foi oportuno sair de um estado de FOMO como fear of missing out para sentir FOMO como fun of missing out, até porque, na verdade, não estava missing out (perdendo) nada de particularmente importante ou interessante.

Desde então, tive alguns momentos nos quais pensei em retornar apenas pelos memes, que são, por vezes, maravilhosos, mas sempre posso buscá-los quando eles não me encontram, já que, daquele infame aplicativo cujo logo tem um fundo verde, não consegui me livrar. Com isso, não nutro qualquer sentimento de “superioridade moral”, como se tivesse alcançado alguma forma “iluminada” de existência. Pelo contrário: estou presa a esse maquinário comunicacional por vários motivos. Estamos todos presos a ele, de um jeito ou de outro – só que voltei a enxergar mais vida para além dele, e isso me interessou muito mais.

Resolvi, assim, que era hora de re(vi)ver este blog (aliás, fiquei muito surpresa vendo as estatísticas de acesso, apesar do tempo sem nenhuma novidade). Comecei dando uma pequena mexida no visual. Não fiquei satisfeita, mas o tempo é curto, no momento, para experimentar com designs e temas novos (alguns demandam imagens destacadas, e eu teria que rever quase todas as postagens). Isso ficará para outro momento. Atualizei as páginas secundárias, e comecei a esboçar postagens novas.

Indo e vindo, volto em breve.

Mesa: Inteligência Artificial na Educação

Participei ontem de uma mesa coordenada por Murillo Marschner, professor do Dept. de Sociologia da USP, junto com o Luis Junqueira, sócio-fundador da Letrus, plataforma de tecnologia educacional que utiliza Inteligência Artificial (IA) para auxiliar no letramento de estudantes

O evento foi o último de um ciclo de mesas redondas sobre as oportunidades e os desafios que a IA impõe à democracia, que vem acontecendo desde julho de 2021 com o objetivo de introduz alguns dos temas que serão discutidos durante o I Seminário Internacional Inteligência Artificial: Democracia e Impactos Sociais, a ser realizado em 13 e 14 dezembro de 2021 sob a organização do Center for Artificial Intelligence, C4AI, da USP, e do Observatório da Inovação e Competitividade, OIC-IEA-USP)

Assista a conversa no link a seguir.

Ensino Frankenstein

Fonte: Pixabay

Têm pipocado por aí muitas propostas de formas que a educação pós-pandemia (de fato, educação na pandemia, pois ela ainda não acabou) poderá ou deverá tomar – e elas me preocupam.

Vejo muitos casos de mais do mesmo, mas com menos… menos carteiras para números menores de estudantes nos mesmos espaços, organizados da mesma forma de sempre (carteiras enfileiradas direcionadas para algum tipo de quadro). Tenho visto também casos de mais do mesmo, mas com mais: de novo, a mesma organização de objetos no espaço da sala, mas separados por divisórias transparentes. Veja algumas imagens aqui (há coisas interessantes também acontecendo: veja aqui algumas fotos de uma experiência na Espanha que viralizou a partir de uma foto que realmente não deu ideia do que teria sido tentado)

Além disso, o velho rótulo de “ensino híbrido” vem sendo resgatado, reinventado, em alguns casos, com nomes novos, em outros, com propostas de modelos bastante estranhas. Em décadas anteriores, mas já após o surgimento da Web, o conceito de ensino híbrido desafiava a polarização entre ensino presencial e ensino on-line no que diz respeito ao tempo de contato em professor e alunos: esquemas de ensino híbrido seriam constituídos de momentos presenciais (síncronos) e momentos on-line (assíncronos). O planejamento envolvido aqui é bastante trabalhoso, sem contar o suporte aos alunos. De qualquer forma, não é nada que instituições de EaD já não viessem fazendo, ainda que em contextos e concretizações diferentes (inclusive anteriormente à internet).

Pois a ideia da hora me parece ser um tal “ensino híbrido” (há outros nomes para a mesma ideia) no qual o professor é confrontado com câmera(s) e telas como “plugins” na velha sala de aula, para que possa “dar sua aula” a estudantes presentes tanto no espaço da sala, quanto via internet. Mas que tipos de interações são possíveis em arranjos assim? Como geri-las? Que efeitos essa combinação de tipos diferentes de presença poderia ter, inclusive, na saúde mental do professor? Em muitos casos, essas experiências serão ou estão sendo gravadas. Por que? Para quê? Como estariam sendo tratadas as questões de direitos de imagem (de professores e alunos) e direitos autorais (se estão sendo tratadas…)?

Essas são apenas algumas questões que me ocorrem em uma aproximação inicial ao enorme desafio posto por esse arranjo, um desafio pedagógico e, em sua base, comunicacional. O arranjo me parece uma enorme gambiarra (termo que guardo com carinho dos meus tempos de estudante de engenharia, pois serve para tanta coisa relacionada à Educação e Tecnologia), algo criado a partir de proverbiais “puxadinhos” que partem de uma ideia que, em si, já precisa ser repensada, ou seja, um cenário que apenas o solucionismo tecnológico poderia enxergar como saída para qualquer coisa.

Mesmo com o avanço da vacinação, estamos diante de incógnitas fundamentais que deixam as instituições educacionais com problemas logísticos enormes, mas que também revelam problema que já existiam. Dentre eles, a questão das salas de aulas lotadas e o foco na hora-aula como parâmetro fundamental na construção do currículo. Acho que esses são os pontos para começar a discussão. Sem isso, temo que estaremos aceitando (que seja por omissão) a premissa de inevitabilidade da inovação por meio de tecnologias digitais e, assim, contribuindo para a criação de aberrações sob um modelo de Ensino Frankenstein.

Constrangimentos acadêmicos

Tentei tirar uns dias das minhas ditas “férias” para fazer um detox de telas (e vale dizer que fracassei miseravelmente, pois, ao contrário de quem acha que a pandemia acaba no momento em que tomamos a segunda dose de alguma vacina, ainda estou saindo de casa apenas para o inevitável, então as telas ainda reinam supremas), e, mesmo antes desse não-retorno, já vinha me deparando com esquisitices que estavam me fazendo pensar mais do que eu queria durante esse (pseudo) descanso.

Uma das bizarrices desses dias apareceu a partir de recomendações de leitura do Google Scholar, que sempre procuro ler, pois, com frequência, são sugestões de fato relacionadas aos meus interesses (o que, em si, já é bizarro). Não vou especificar nenhum dos trabalhos em questão, mesmo sabendo que, com isso, não deixarei nenhuma evidência ao leitor dos meus “achados”, mas prefiro pecar em termos acadêmicos a perder a delicadeza. Enfim, vou apenas descrever o que observei em dois desses textos, que coincidentemente, citavam um trecho de uma publicação minha.

O primeiro texto tirava um trecho de seu contexto original e o reposicionava de forma a sustentar um argumento absolutamente contrário ao que está sustentado no original, a partir de um uso da citação para se referir a algo que não era o assunto em discussão no original. Por sua vez, o segundo texto reproduzia por completo um parágrafo do primeiro, inclusive a citação distorcida do meu trabalho, mas sem citar o primeiro texto. Conversando com um amigo, a palavra “plágio” apareceu, mas como ele mesmo admitiu, isso é algo difícil de identificar e caracterizar até quando existe uma smoking gun, ou seja, uma cópia clara de um trecho de outro texto. Pessoalmente, acho a discussão sobre plágio reduzida à simples ideia da cópia bastante tediosa, ainda que seja bastante lucrativa (mencionei isso em outro post).

Ironicamente, já encontrei alguns exemplos desse tipo de “canibalismo acadêmico” com materiais que publiquei neste blog. Não fui buscá-los, mas chegaram a mim por coincidências variadas: links que me apareceram em feeds de alguma rede social, questionamentos de alunos, trocas de leituras com colegas, enfim, por vias pelas quais a produção acadêmica se dissemina. O mundo não é mais tão grande, de muitas formas, e essas coisas são muito constrangedoras.

Aproveito para deixar o link para um artigo meu que saiu recentemente (sobre educação na pandemia), escrito a partir de um convite muito gentil que partiu exatamente do reconhecimento das ideias circuladas neste blog, que, aliás, está compartilhado sob uma licença Creative Commons. Em outras palavras, tudo que está aqui pode ser citado e reusado – o retorno solicitado é apenas um mínimo de cortesia na forma de citação da fonte.