Lançamento de *Deseducando a Educação: mentes, materialidades e metáforas*

Uma das mesas a serem realizados durante o I Seminário Internacional Reconceitualizando a Educação, organizado pelo Departamento de Educação da PUC-Rio, marcará a apresentação do livro Deseducando a Educação: mentes, materialidades e metáforas. A mesa será composta pelos Profs. Ralph Bannell, Mylene Mizrahi e Giselle Ferreira (eu!), organizadores do volume, com mediação do Prof. Karl Erik Schollhammer, do Dept. de Letras da PUC-Rio.

A coletânea reúne textos em torno dos três eixos temáticos que estruturam o livro: mentes, materialidades e metáforas. A primeira parte, org. pelo Prof. Ralph, focaliza teorização recente sobre a cognição. A segunda parte, sob a responsabilidade da Profa. Mylene, traz uma gama de contribuições muito interessantes da Antropologia. Por fim, a minha parte congrega textos que exploram metáforas como eixos de discussão de questões da educação. O livro contou com a colaboração de autores nacionais e internacionais bastante respeitados em suas áreas de atuação.

Quer saber mais? Junte-se a nós no dia 15! A conversa será transmitida pelo canal do Departamento de Educação no YouTube, neste link.

O livro será disponibilizado como e-Book de acesso livre – divulgaremos os detalhes de acesso assim que possível.

Ah! Antes de clicar em “publicar”, deixo o convite também para, quem achar interessante e puder, que nos ajude a divulgar – o cartaz pode ser baixado aqui.

Roda de conversa: METÁFORAS

Para os interessados em participar na roda de conversa que irei mediar no I Seminário Internacional Recontextualizando a Educação: clique aqui para preencher o formulário de inscrição.

Contarei com a presença de meu precioso parceiro de pesquisas e escritas, o Prof. Márcio Lemgruber, e do Prof. Diogo Gurgel, do Dept. de Filosofia da UFF, estudioso das teorias da metáfora.

Pretendemos gravar a discussão e disponibilizá-la posteriormente no Canal do YouTube do Departmento de Educação da PUC-Rio. Avisarei aqui quando isto for feito, caso haja interessados que não possam assistir ao vivo.

O link será enviado para os e-mails cadastrados no dia anterior – aguardo você lá!

Se quiser nos ajudar a divulgar, baixe aqui o cartaz.

Seminário Internacional *Reconceitualizando a Educação* – programação!

Conforme anunciei anteriormente, o Departamento de Educação da PUC-Rio realizará em 15 e 16 de abril o I Seminário Internacional de seu projeto de internacionalização Formação Humana, Cultura e Aprendizagens, coordenado pela Profa. Rosália Duarte. O projeto, financiando pelo Programa Capes-Print, articula pesquisas de professores do PPGE/PUC-Rio desenvolvidas em interlocução com colegas de instituições estrangeiras.

Como sugere o título desta edição – Reconceitualizando a educação – o foco do Seminário é a busca por novos rumos para pensar a Educação como disciplina acadêmica e prática social. O evento contará com a participação de parceiros internacionais e nacionais em discussões sobre resultados de pesquisa e possíveis desdobramentos futuros dos diálogos que temos conduzido. Em particular, haverá o lançamento da coletânea Deseducando a Educação: mentes, materialidades e metáforas, organizada em uma parceria envolvendo os Profs. Ralph Ings Bannell, Mylene Mizrahi e Giselle Ferreira (a autora deste post).

As mesas serão transmitidas pelo canal do Dept. de Educação da PUC-Rio no YouTube.

As rodas serão conduzidas em sessões do Zoom organizadas pelos respectivos professores anfitriões das conversas. Para obter o link de acesso, entre em contato com o(s) anfitrião(ões) da(s) roda(s) de seu interesse (os detalhes para contato estão aqui).

A programação completa pode ser baixada em pdf neste link, mas copio abaixo o programa com links adicionais para informações sobre os participantes e material promocional que estamos utilizando para disseminar o evento nas redes.

Programação

Quinta-feira, 15 de abril de 2021</h4

9:30h – Cerimônia de abertura. Baixe aqui o cartaz.

10:00h – Mesa Redonda – Apresentação do livro-base do Projeto Deseducando a Educação: mentes, materialidades e metáforas. Professores Ralph Bannell, Mylene Mizrahi e Giselle Ferreira. Mediação do Prof. Karl Erik Schollhammer (Letras, PUC-Rio) Baixe aqui o cartaz.

14:00h – Diálogos Transversais – rodas de conversa dos grupos de pesquisa com parceiros internacionais e nacionais.

Recepção Cultural e públicos em ação. Cristina Carvalho (Gepemci PUC-Rio), João Teixeira Lopes (Universidade do Porto), Ana Dias Chiaruttini (Université Côte d’Azur). Baixe aqui o cartaz.

Materialidade e transformação. Mylene Mizrahi (EstetiPop PUC-Rio), Cristina Toren (University of Saint Andrews), Ana Maria Gomes (UFMG), Isabel Carvalho (UFMG), Profa. Chantal Medaets (UNICAMP). Baixe aqui o cartaz.

Metáforas. Giselle Ferreira (DEdTec PUC-Rio), Márcio Lemgruber (UFJF), Diogo de França Gurgel (UFF). Baixe aqui o cartaz.

Cinema & Educação Brasil e Portugal. Rosália Duarte (Grupem PUC-Rio), Mirna Juliana Fonseca, Raquel Pacheco (Universidade Nova de Lisboa), Maria Angélica dos Santos (Programa de Alfabetização Audiovisual). Baixe aqui o cartaz.

Educação inclusiva no Ensino Superior. Zena Eisenberg (Grudhe PUC-Rio), Sílvia Brilhante (PUC-Rio), Maria Helena Martins (Universidade do Algarve). Baixe aqui o cartaz.

16:00h – Exibição de entrevistas: Andy Clark (University of Sussex) – Ezequiel Di Paolo (Basque Foundation for Science) – Cristina Toren (University of Saint Andrews) – Christa Whitney (Yiddish Book Center).

Sexta-feira, 16/4/2021

10:00h – Mesa RedondaPaulo Freire Internacional – Maria Inês Marcondes (PUC-Rio),  Gustavo Fischman (Arizona State University) e Tristán MacCowan (Institute of Education, University College London). Baixe aqui o cartaz.

14:00h – Diálogos Transversais – rodas de conversa dos grupos de pesquisa com parceiros internacionais e nacionais

Estética e Educação. Mylene Mizrahi (PUC-Rio), Marjorie Murray (PUC-Chile), Veronica Garcia Lazo (PUC-Chile), Baixe aqui o cartaz.

A educação popular na América Latina nos anos 1960. Patrícia Coelho (PUC-Rio), Fernando Gouvêa (UFRRJ), Cíntia Oliveira (UNESA), Renato Pontes (PUC-Rio), Baixe aqui o cartaz.

16:00h – Encerramento

I Seminário Internacional *Reconceitualizando a Educação* na PUC-Rio

May be an image of ‎one or more people and ‎text that says "‎>>> FORMAÇÃO HUMANA, CULTURA EAPRENDIZAGENS I SEMINÁRIO INTERNACIONAL Reconceitualizando a Educação 15 e 16.04 online REALIZAÇÃO: AO EDUCAÇÃO rטCA PUC‎"‎‎

Em 15 e 16 de abril próximos, será realizado o I Seminário Internacional *Reconceitualizando a Educação*, organizado por participantes no projeto Formação Humana, Cultura e Aprendizagens, coordenado pela Profa. Rosália Duarte.

O projeto envolve vários outros dos meus colegas do Departamento de Educação da PUC-Rio na construção de uma rede internacional de parcerias de pesquisa, com financiamento do Programa Capes-Print. O coordenador internacional do projeto é o Prof. Gustavo Fischman, da Arizona State University.

Teremos diversas mesas e rodas de conversas sobre assuntos bastante interessantes, e a primeira delas será dedicada ao lançamento do livro Deseducando a Educação: mentes, materialidades e metáforas, que compõe a fundamentação teórica do projeto. Minha contribuição ao livro focaliza a parte relativas às metáforas.

O livro está saindo do forno, assim como a programação e o resto do material promocional do evento. Assim que estiver com tudo em mãos, postarei aqui.

As mesas serão transmitidas pelo Canal do Dept. de Educação da PUC-Rio no YouTube, e as rodas serão feitas pelo Zoom (com inscrições via formulários no Google Drive).

Em breve!

Mais um post sobre experiências na educação durante a pandemia…

Fonte: Pixabay

Publiquei anteriormente alguns posts sobre questões gerais pertinentes à educação durante a pandemia (reunidos aqui), e cheguei a mencionar que escreveria, futuramente, detalhes sobre como estava trabalhando na graduação. Pois tentarei fazer isso agora, partindo de rascunhos e anotações que fui fazendo ao longo de 2020.

Tanto no primeiro, quanto no segundo semestre de 2020, fui alocada a uma disciplina sobre tecnologias e educação. É uma matéria obrigatória do curso de Pedagogia e eletiva das outras Licenciaturas e do domínio adicional Tecnologias e Mídias Digitais da universidade, e, por isso, relativamente popular. Os grupos, porém, eram bastante diferentes: o de 2020.1 era composto, predominantemente, por alunos de 1o e 2o período da Pedagogia. Em 2020.2, a maioria era de alunos das outras Licenciaturas (Biologia, Letras, etc.), muitos já nos dois últimos períodos de seus respectivos cursos, ou seja, era uma turma de estudantes mais maduros, digamos. De qualquer forma, as turmas que tenho tido na disciplina tendem a ser fortemente heterogêneas de diversas formas, e preciso sempre considerar, também, como parte dos propósitos de qualquer ação, a necessidade de acomodar uma ampla gama de habilidades, possibilidades e limites.

No início de março, tive, com a turma daquele semestre, alguns encontros presenciais ao longo das duas semanas que se passaram até ser decretado o fechamento do campus da instituição, e já estava com quase todos os nomes e rostos em mente. Com a turma do semestre seguinte, acabei por conhecê-los apenas como nomes escritos sobre um retângulo preto, ou fotos de rostos sorridentes, pois muitos preferiam não abrir suas câmeras, ainda que participassem, ocasionalmente, por áudio. Ou seja, foram experiências totalmente diferentes, não apenas porque foram grupos de pessoas diferentes, com expectativas também bastante diferentes, mas, crucialmente, porque não foi possível o usual encontro de “acolhimento” presencial que as “boas práticas” de EaD tendem a defender.

A lógica que adotei para pensar inicialmente a adaptação da disciplina para a situação não-presencial baseou-se em dois eixos fundantes: (1) inclusão; (2) articulação “teoria-prática”. Por um lado, tomando como base uma espécie de máxima que orienta a determinação de requisitos técnicos para cursos em EaD (“a corrente é tão forte quanto seu elo mais fraco”), pensei em adotar várias mídias alternativas para apoiar contatos pessoais, com preferência por mídias assíncronas, que são menos custosas em termos de consumo de dados (alguns pacotes de dados para celulares oferecem acesso ilimitado a alguns serviços). Por outro lado, objetivando promover uma forma de articulação “teoria-prática” baseada na apropriação de ideias acadêmicas em exercícios de leitura de mundo, propus uma série de atividades que combinaram trabalho conceitual (leituras e discussões de textos acadêmicos) com buscas e discussão de matérias on-line sobre assuntos do momento vivido (em duplas ou pares), complementadas com reflexões individuais.

Comecemos, porém, pelas questões mais instrumentais.

Para a turma do primeiro semestre, na correria que se sucedeu à implantação da quarentena no estado do Rio de Janeiro, acabei utilizando dois grupos no Facebook e um grupo no WhatsApp, além do espaço no Google Drive que já havia organizado na preparação para o semestre. A universidade dispõe de um sistema de administração acadêmica que permite envio de e-mails em bloco para turmas inteiras, que é bem útil para os professores (não temos que criar listas separadamente), mas nem sempre produtivo (pois sistemas de e-mail diferentes às vezes direcionam as mensagens recebidas por esse sistema para a caixa de spam). Utilizo esse sistema com parcimônia, mas, no início do semestre, não houve outro jeito.

Acho que levei duas semanas até conseguir que todos compreendessem como seria a nova dinâmica e acessassem todos os espaços, seguindo as seguintes etapas:

  1. Primeiro contato com os alunos por e-mail em bloco (primeira semana da quarentena) para verificar a situação de cada um no tocante a equipamento, acesso à internet e espaço para trabalho;
  2. Com base nas informações obtidas nesse levantamento, montei um grupo de WhatsApp reunindo toda a turma (tratava-se da única mídia da qual todos já eram usuários), para possibilitar um acolhimento inicial e a (re)organização das atividades; a primeira atividade foi realizada com apoio desse aplicativo;
  3. Na sequência, criei os dois grupos (secretos) no Facebook (a única aluna que não era usuária dessa plataforma gentilmente se prontificou a criar um perfil para acompanhar a turma): um grupo para trocas informais (“Café com Bolo”, aberto para postagens por todos), outro para o trabalho na disciplina (no qual apenas eu poderia postar, mas todos poderiam comentar), e todos os trabalhos e discussões foram conduzidos nessa plataforma (com apoio de e-mail, WhatsApp e ligações telefônicas, em alguns casos);
  4. Videoconferências por Zoom foram realizadas em momentos específicos do semestre (sessões de uma hora, com a turma dividida em grupos, pois eram muitos), com fins, basicamente, de cultivar relações e dar uma espécie de apoio “pastoral”. A utilização de e-mail foi minimizada (a pedido dos próprios alunos), e o WhatsApp permaneceu em uso (uso esporádico do grupo criado inicialmente, mas uso continuado para comunicação um-a-um). Foi mantida a pasta no Google Drive que havia montado antes do início do ano letivo, contendo o programa da disciplina e um repositório de todas as leituras (básicas e complementares) em arquivos PDF.

Para o segundo semestre, recebemos uma orientação institucional no sentido que procurássemos concentrar nossos usos de espaços on-line no AVA interno (Moodle), gerido e mantido pela unidade que coordena a oferta de EaD da universidade. A plataforma realmente oferece uma grande vantagem com relação à gestão da avaliação (em 2020.1, recebi trabalhos via múltiplos canais, e a trabalheira para organizá-los foi insana, pois havia entregas quinzenais individuais de uma turma de 36…). Além disso, o agendamento e acesso ao Zoom foram integrados no ambiente, o que é bem útil também. Então, para a turma do segundo semestre, o espaço ficou assim:

Preferi a configuração de blocos, que deixa a tela mais limpa e funciona bem no celular também, e usei ícones e indicações claras de temas e datas para criar um mapa/guia do curso. Ao clicar em um bloco, abre-se uma janela com detalhes; por exemplo:

Nada disso é novo (são pequenos detalhes de “design instrucional“), e o uso dos arquivos pdf é algo que muitos da área do e-learning dirão ser uma “má prática”. Aqui entram as especificidades do contexto e a necessidade de flexibilidade, tanto no acesso a orientações e textos, para que pudessem ser lidos sem que o aluno estivesse necessariamente on-line, quanto no tocante a prazos. O acesso à internet no Brasil é mesmo bem frágil, e tive que reagendar alguns encontros (com a turma de pós e com o grupo de orientandos) por total falta de acesso (até o 4G pelo celular estava restrito nessas ocasiões). Outra coisa é que os layouts “quebradinhos” de treinamentos on-line não são, na minha opinião, apropriados para toda e qualquer experiência educacional on-line. De qualquer forma, elementos on-line e o off-line, síncronos e assíncronos sempre precisam ser pensados de forma integrada, e precisamos estar sempre prontos para improvisar alternativas.

OK, esses são os ossos do ofício do trabalho on-line com infraestrutura flaky – mas e as questões pedagógicas?

Bem, aqui me considero bastante privilegiada com a disciplina: se mídias e tecnologias, antes do início da pandemia, estavam em pautas de discussão específicas e eram ainda tratadas por muita gente como um “adendo” à formação de professores, as coisas mudaram radicalmente com o fechamento das instituições de ensino (em todos os níveis). Nesse contexto, os assuntos dos quais usualmente trato na disciplina tornaram-se fundamentais de uma forma não imaginada antes.

Pensei, então, que o ideal seria adaptar, de forma bastante explícita, o material da disciplina ao momento que estávamos vivendo, aproveitando as vivências de aprendizagem remota dos próprios alunos, bem como elementos do contexto mais amplo no qual estávamos inseridos, como fonte de material a ser integrado no trabalho da disciplina.

A partir de uma estrutura de atividades com produtos a serem entregues semanal ou quinzenalmente para fins de avaliação continuada, consegui manter o direcionamento que havia determinado ao montar o programa original da disciplina, que combinava elementos de “aprendizagem entre pares”, “sala de aula invertida” e “aprendizagem por projeto”. Dessa forma, conduzi os alunos em reflexões sobre a experiência de aprender a distância como base para encorajá-los a repensarem suas concepções sobre aprender, ensinar, a aula, a sala de aula e os objetos que fazem parte do cenário da educação (digitais ou não). E como faço sempre, encorajei-os a manterem um Diário com anotações, questões, recortes de leituras (e de materiais midiáticos sobre os assuntos tratados), para a composição de um portfólio a partir do qual seria feita a avaliação.

Para ilustrar, compartilho aqui uma das atividades conduzidas, relacionada ao tema “letramento midiático”. O objetivo da atividade era proporcionar aos alunos uma oportunidade de explorarem os problemas envolvidos na divulgação de “notícias enganadoras” (que incluem as famigeradas fake news), bem como, em particular, refletirem sobre o processo de verificação de informações. As orientações por escrito foram, subsequentemente, exploradas em discussão de forma a explicitar o pensamento pedagógico a sustentar a atividade. Dessa forma, os alunos também foram convidados a refletir sobre questões pedagógicas, ou seja, convidados a pensarem como professores (em formação, que é como sempre os trato). Assim, a discussão pode avançar não apenas em relação ao “conteúdo” (o tema), mas também à “forma” (o modo como a atividade foi pensada), o que me parece essencial em um contexto de trabalho com futuros docentes (e aqui incluo o pessoal da Comunicação que expressa o desejo de atuar na comunicação pública da ciência).

Nesse sentido, a avaliação na disciplina sempre contém, minimamente, um componente reflexivo, e, no segundo semestre, cheguei a um formato que achei bastante produtivo (e que manterei para o semestre atual, com alguns ajustes para melhorar a apresentação). As orientações estão aqui. A proposta envolve um elemento de role play que demanda a mobilização de conhecimentos em um contexto profissional imaginário, destacando a noção de que é o pensamento pedagógico que precisa orientar a ação docente, não a disponibilidade de mídias. Acho isso bem mais interessante do que uma prova ou mera atividade de produção (instrumental) de mídias (como vinha fazendo no laboratório que temos disponível para essa disciplina no presencial).

Uma coisa que não consegui, no final do semestre, foi fazer com a turma a avaliação da disciplina. Faço isso todo semestre usando como base este formulário, mas, confesso: cheguei ao final dos semestres de 2020 quase que inteiramente “sem gás”. Esse tipo de avaliação é uma forma importante de ação docente, pois, além de me dar subsídios para refletir sobre o que faço, também constitui uma oportunidade para os professores em formação sob minha responsabilidade pensarem sobre avaliação, que é um assunto em geral negligenciado. Surpreendem-se, quase sempre, com a proposta e com meus comentários sobre avaliação ser algo integral à aprendizagem, “instantâneos” que dizem alguma coisa sobre um processo, que é algo que se desenrola no tempo, mas não dizem tudo.

Há muito que eu poderia falar sobre essas experiências remotas, mas vou destacar alguns pontos que considero essenciais:

  1. Como muita gente vem dizendo, não faz sentido simplesmente substituir horas-aula por horas no Zoom. Isso simplesmente deixa todo mundo exaurido. É preciso pensar em formas de manter o contato pessoal, claro, mas o contexto que estamos vivendo não é o que tínhamos antes, ou seja, as pessoas não estão em casa por vontade própria. E, em casa, as demandas também mudaram (aumentaram, para muita gente), inclusive, com o relaxamento do isolamento social, deu-se o retorno gradativo de muitos a seus respectivos locais de trabalho. Enfim, as circunstâncias dos alunos (e nossas!) são múltiplas. Aliás, câmeras fechadas refletem tanto as formas de se lidar com essa multiplicidade, quanto a questão perene da “presença sem presença”, mencionada no próximo item (no final de encontros no Zoom, sempre há remanescentes que parecem ter estado presentes dessa forma…).
  2. Também como reza a cartilha da EaD, a aprendizagem não-presencial demanda muito mais autonomia e organização do aprendiz. Não acho, entretanto, que essa questão seja relevante apenas à aprendizagem remota: a distância apenas torna crítico um problema já existente. No campus, a agenda semanal dos alunos tende a girar em torno da presença em sala de aula. As próprias expectativas dos alunos parecem girar em torno da ideia de que só se aprende em sala de aula – mesmo admitindo que, com frequência, o estar em sala é apenas “de corpo presente”, em uma “presença sem presença”, ou seja, o aluno está suficientemente ali para evitar uma falta na pauta, mas, durante aquele tempo, passa a habitar algum “lugar feliz” em sua mente, alheio ao que se passa ao seu redor. Fora do campus, sem sessões de Zoom a substituir a hora-aula, fica mais óbvia a necessidade de organização. Em particular, no contexto de formação de professores, acho essencial mostrar não apenas que a sala não é o único local de aprendizagem, mas, crucialmente, que eles precisam se apropriar do processo de forma mais ampla. Precisamos lhes dar oportunidades para ensaiarem essa apropriação.
  3. Por que não usei o Moodle no primeiro semestre? Sinceramente, porque não quis. Fui usuária do Moodle no passado, até cheguei a fazer uma instalação em um computador na época, e não gostava do excesso de parâmetros e controles. As coisas mudaram um pouco e realmente faz sentido, para alunos com todas as disciplinas em modo remoto, que haja um espaço único onde possam acessar tudo que precisam. Há, também, a questão da avaliação, que já mencionei acima. Mas ainda não entendo como podem defender o Moodle como “construtivista”, e tenho mil e uma objeções também relativas a questões de direitos autorais e direitos de imagem (tanto que, em geral, não gravo encontros no Zoom). Enfim, é uma solução de compromisso, no meu entender, um assunto para outra postagem.
  4. Em momento algum quis dizer que o que estou fazendo é modelo para outras pessoas! Pelo contrário: no final do primeiro semestre, especificamente, recebi algum feedback bem negativo de um aluno (poucos participam da avaliação institucional dos professores). Creio que alguns (ou muitos, não saberia estimar) esperavam aquilo que acham que é a EaD: aulas gravadas. Eu, particularmente, acho aulas gravadas quase sempre bastante tediosas (recentemente comecei a acelerar a velocidade de playback de certos vídeos – é uma experiência horrenda, e creio que pagaremos um preço por isso, com tantos jovens adotando essa estratégia…). Na Open University, aliás, aulas gravadas foram abandonadas muito cedo na história da instituição, que foi favorecendo gêneros midiáticos mais criativos e interessantes, como docudramas, dramas históricos, animações etc. Enfim, isso seria mais um assunto para outras postagens.

Por fim, a questão mais importante: para que mais um postagem sobre experiências na educação durante a pandemia? Parece haver muitos gurus e “especialistas” de prontidão (principalmente para vender benditos “treinamentos”), e as postagens se multiplicam com dicas, estratégias, defesas de rótulos específicos, enfim, já nos aproximamos de uma forma de infoxicação dessas coisas. Nomes novos para coisas velhas, nomes velhos para coisas novas, enfim, a busca por estabelecer territórios não cessa nunca… Nesse contexto, acho válido lembrarmos de que, talvez, o que precisemos, é de experimentação, criatividade e, crucialmente, mais reflexão. Sim, é preciso saber “onde clicar”, mas isso se pode descobrir simplesmente clicando, lembrando que, neste mundo digital, é possível desfazer quase tudo. O que não dá para desfazer com facilidade são as expectativas e pré-concepções, nossas e de nossos alunos. Para tanto, é preciso reflexão, e, nisso, espero ter adicionado meus dois centavos do dia.

Entre a ficção e a realidade: uma experiência

No 7o Colóquio de Pesquisas em Educação e Mídias, que aconteceu on-line na semana passada, apresentei, junto com alguns dos integrantes do DEdTec, um relato sobre o trabalho que conduzimos em 2020.2: Uma experiência de formação com a ficção durante a pandemia: da distopia à esperança. Eis a proposta original:

Apesar da euforia em torno das tecnologias de internet como meios para manter as instituições educacionais em funcionamento durante a pandemia de covid-19, a realidade representada em relatos de jornais, blogs e artigos científicos é bastante diversa. Mundo afora, vidas estão sendo profundamente afetadas (ou, infelizmente, perdidas), e, no âmbito da educação em um país com desigualdades tão marcantes quanto o nosso, professores e estudantes têm enfrentado desafios, em alguns casos, intransponíveis. Mais do que nunca, talvez, a profissão docente se revela como uma das profissões do cuidado: somos formadores de seres humanos. Em particular, na crise que estamos vivendo, nossas propostas pedagógicas precisam superar uma visão “conteudista” do currículo e considerar as possibilidades e limites do aqui e agora, integrando-as, na medida do possível, em nossas ações junto aos nossos alunos.

Nesse sentido, esta proposta baseia-se em uma reflexão sobre uma experiência conduzida, no segundo semestre de 2020, com um grupo de estudantes em processo de formação para a pesquisa em Educação. Na esteira de experimentações anteriores (por ex., Ferreira et al. 2020; Rosado et al, 2015), e inspirada em literatura que explora o potencial da ficção como um recurso formativo (por ex., Aquino & Ribeiro, 2011; Lemos, 2016), a experiência em questão teve dois objetivos principais: (1) apoiar o desenvolvimento de criticidade acerca da relação entre a educação e a tecnologia, utilizando cenários ficcionais que exploram a relação entre humano e máquina; (2) proporcionar um espaço de discussão que possibilitasse a articulação entre o acadêmico e o não acadêmico, sobretudo o pessoal e o vivido. Nesse sentido, foram selecionadas algumas obras de ficção distópica como base do trabalho do grupo ao longo do semestre, complementadas com textos acadêmicos (incluindo Postman, 2005 [1985], Coeckelbergh, no prelo; Haraway, 2009 [1991], dentre outros).  

As seguintes obras foram examinadas em encontros síncronos semanais: (a) Autofab, episódio do seriado Electric Dreams que revisita e atualiza, para o nosso momento de expansão da Inteligência Artificial e criação de robôs antropomórficos, o conto de Phillip K. Dick escrito na década de 1950, quando os temores da humanidade tinham por objeto a tecnologia nuclear; (b) Frankenstein, de Mary Shelley, um clássico da literatura gótica vitoriana considerado o precursor da ficção científica; (c) Metropolis, de Fritz Lang, um clássico do expressionismo alemão que, além de constituir um marco na história do cinema, permanece intensamente relevante em sua exploração da relação entre tecnologia e sociedade; e (d) Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, uma obra publicada em 1932 de notável presciência, que mantém viva sua atualidade, em particular, no que diz respeito às decorrências do avanço tecnológico para a reprodução biológica e sociocultural, conforme destacou Postman (2005 [1985]).

A apresentação aqui proposta irá abordar: (a) os fundamentos teórico-conceituais e a metodologia planejada para a experiência; (b) leituras do grupo a partir das obras (e articulações entre elas), focalizando em formas nas quais essas obras podem nos ajudar a compreender e questionar o contexto atual mais amplo no qual a educação se insere; (c) questões imbricadas nos processos comunicacionais remotos síncronos em um contexto considerado, em si mesmo, distópico. Nele, a experiência mostrou-se não apenas um exercício intelectual, mas sim uma exploração criativa e fortemente solidária, que acolheu e promoveu a reflexão individual e a construção compartilhada de significados em/sobre um contexto desafiador e circunstâncias, com frequência, delicadas. Assim, em uma perspectiva mais ampla, a experiência constitui-se em um exemplo de como a reflexão a partir de narrativas distópicas pode se tornar um alicerce para a humanização, a resistência e, quiçá, a esperança.

Palavras-chave: educação superior na pandemia; distopia; ficção científica; formação de pesquisadores

Referências

AQUINO, J.G.; RIBEIRO, C. (Org.). A Educação por vir: experiências com o cinema. São Paulo: Cortez, 2011.

AUTOFAC (Temporada 1, ep. 8). Electric Dreams [Seriado]. Direção: Peter Horton. Podução: Channel 4 Television Corporation e Sony Pictures Television, 2017. 1 vídeo (51 min).

COECKELBERGH, M. Antropologias do monstro e tecnologia: máquinas, ciborgues e outras ferramentas tecno-antropológicas. In: BANNELL, R.I.; MIZRAHI, M.; FERREIRA, G.M.S. (Org.) Deseducando a educação: mentes, materialidades e metáforas. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio, no prelo.

DICK, P.K. Autofab. In: DICK, P.K. Electric Dreams. Trad. Daniel Luhmann. São Paulo: Aleph, 2017 [1955].

FERREIRA, G.M.S. et al. Estratégias para resistir às resistências: experiências de pesquisa e docência em Educação e Tecnologia. e-Curriculum, v. 18, n. 2, p. 994-1016, 2020. Disponível em: < https://doi.org/10.23925/1809-3876.2020v18i2p994-1016 >. Acesso em: 15 jan. 2021.

HARAWAY, D. O manifesto ciborgue. In: Tadeu, T. (Org.) Antropologia do ciborgue. As vertigens do pós-humano. Trans. Tomaz Tadeu. 2a ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2009 [1991].

HUXLEY, A. Admirável Mundo Novo. Trad. Vidal de Oliveira e Lino Vallandro. Porto Alegre: Ed. Globo, 1979 [1921].

LEMOS, D.C.A. (Org.) Distopias e Educação. Entre ficção e ciência. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2016.

METROPOLIS. Direção: Fritz Lang.  Produção: Erich Pommer. Alemanha / Finlândia: Universum Film / Yleisradio, 1927/2010. 1 DVD (153 min.).

POSTMAN, N. Amusing ourselves to death. Public discourse in the age of show business. 20th anniversary edition. Nova York; Londres: Penguin, 2005 [1985].

ROSADO, L.A.S. et al. De Metropolis a Matrix: arte e filosofia na formação de pesquisadores em educação. Leitura: Teoria e Prática, v. 33, n. 54, p. 97-110, 2015. Disponível em: < https://ltp.emnuvens.com.br/ltp/article/view/371/272 >. Acesso em 15 jan. 2021.

SHELLEY, M. Frankenstein, ou o Prometeu moderno. Trad. Bruno Gambarotto. São Paulo: Hedra, 2013 [1818].

Os slides da apresentação podem ser baixados neste link.

Infelizmente, meu parceiro nessa aventura de trabalho com filmes e livros, o Prof. Márcio Lemgruber, não conseguiu estabilizar sua conexão à Internet na hora da sessão e, assim, não conseguiu participar, mas eu e Kadja Vieira, mestranda no DEdTec, fizemos a apresentação. Kadja criou o layout para os slides, deixando apenas alguns detalhes para eu finalizar, pois já tínhamos aproveitado a primeira sessão de discussão do grupo neste semestre para organizar as ideias, até porque há muita gente ingressando no grupo agora e achei importante darmos uma ideia ao pessoal novo sobre os caminhos que trilhamos no ano passado.

As perguntas que recebemos foram bastante interessantes e permitiram que elaborássemos um pouco mais as ideias, tanto sobre a experiência em si, quanto sobre as pesquisas em andamento. Gostaria, porém, de dar destaque às respostas dadas por minhas orientandas, que mostraram como a experiência tem sido, de fato, produtiva: como orientadora (professora, de forma mais geral), não espero que meus alunos saiam pelo mundo repetindo o que digo (aqui lembro sempre do amigo Alexandre Rosado, com quem compartilho um horror a sectarismos acadêmicos), mas que se apropriem das ideias com as quais têm contato por meu intermédio e, principalmente, que as questionem sempre. As palavras das três – Kadja, Juliana e Cristal – sugeriram que estamos mesmo a caminhar dessa forma, o que me deixou bastante satisfeita.

Quero também ressaltar o papel fundamental do Prof. Márcio no processo que tem permitido que nosso espaço de discussão vá se constituindo como um espaço livre, protegido, acolhedor e fortemente dialógico: temos uma crença compartilhada de que é mais importante dizer algo sobre o que alguém disse do que simplesmente repetir o que já foi dito, sempre, obviamente, de forma consistente com o momento de formação de cada um. Por outro lado, não abandonamos o papel que nos cabe, como docentes, no sentido de dar apoio e direcionamentos possíveis a cada um que embarque na construção desse caminho que pensamos ser a criticidade.

Tem sido um privilégio estar com ele e com todos que escolhem permanecer no grupo, e é desse estar junto, mesmo que on-line, que a esperança vai se nutrindo – como disse o escritor Ítalo Calvino no fechamento de seu maravilhoso As Cidades Invisíveis,

7o Colóquio de Pesquisas em Educação e Mídias

Aconteceu, na semana passada, o 7o Colóquio de Pesquisas em Educação e Mídias / 3a Escola de Primavera em Educação e Mídias Guaracira Gouvêa. O evento foi reagendado da primavera de 2020 para o início do outono de 2021, por causa da pandemia.

Muita gente esteve envolvida na organização do CPEM, que se deu inteiramente on-line pelo canal do evento no YouTube (as sessões principais) e Zoom (as rodas de conversa). A programação completa está nesta página no site do evento.

Infelizmente, não consegui participar de todas as sessões que havia planejado, devido a conflitos em minha agenda, mas o sentimento que tive, a partir das sessões nas quais consegui participar, foi de uma certa tristeza, por um lado, e muita garra, por outro. Esse foi o primeiro CPEM conduzido sem uma de suas idealizadoras e organizadoras mais presentes, a Profa. Guaracira Gouvêa, não mais entre nós, e ela foi carinhosamente lembrada e homenageada.

E, como não poderia deixar de ser, na atual conjuntura de crise generalizada que estamos a viver, o evento constitui-se como uma forma de resistência, como tanto do que está sendo feito na Educação Superior neste momento. A sessão de fechamento foi particularmente emocionante nesse sentido: fica aqui uma lembrança, gentilmente cedida pela querida Jaciara Carvalho!

Contribuí modestamente para a organização como membro do Comitê Científico, e apresentei, com integrantes do DEdTec, um relato de nossa experiência em 2020.2, sobre o qual vou comentar na postagem seguinte: volte em breve para vê-la!

Mais um dia da marmota

Para quem não sabe: acabou 2020, começou 2021 (ou 2020 Episódio 2), e continuamos a toda em nossa lida na Educação.

É triste ver tanta gente pelo Wild Wild World da WWW afirmando que os professores reclamam demais, trabalham pouco e, durante a pandemia, estão em casa sem nada fazer. A partir daquela ideia de que não se trabalha a menos que se esteja em um dito local de trabalho – quase sempre uma sala mal arejada, poeirenta e alojando mais gente do que deveria -, vivemos sob pressão, invisíveis, mas com a ausência sentida, mesmo que a presença seja incompreendida. São os tempos modernos que vivemos: tempos de massificação, automação, repetição.

Enfim, sigamos – vou tentar aproveitar esta semana de “recesso” (?) inesperado para vir trazendo para cá algumas novidades que foram ficando na pasta de rascunhos ao longo do ano passado. Vou começar pelo mais recente: a participação do DEdTec em um evento na semana passada.

Redes, dilema e ironia

Finalmente assisti o documentário da Netflix que está sendo tão falado, O Dilema das Redes. Há muitas reações e comentários a partir de múltiplas perspectivas já publicados na rede, e a hype em alguns dos textos que li estava meio que me tirando o ânimo, mas acabei me rendendo à curiosidade.

Para quem tem pouca ou nenhuma reflexão sobre tecnologia, o documentário é bem interessante como porta de entrada para perspectivas mais críticas, pois, ao apresentar alguns aspectos dos bastidores da indústria das tecnologias digitais, sugere que nem tudo são flores, como muitos entusiastas das “redes” nos tentam convencer. Se você está começando a duvidar dos discursos do otimismo desmedido em torno da tecnologia, vale dar uma lida nesta matéria para aquele empurrãozinho extra…

Enfim, estas são as linhas gerais do documentário: a partir de entrevistas com ex-empregados de grandes empresas do Vale do Silício (incluindo as “5 grandes” ou GAFAM – Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsoft), O Dilema das Redes traz uma variedade de questionamentos relativos às táticas que essas empresas utilizam em sua “competição por nossa atenção”, bem como suas decorrências. Veja aqui uma postagem bem didática que inclui excelentes recomendações complementares de vídeos e textos (acesso aberto) de alguns dos entrevistados.

Casino, Arcade, Slot Machines, Machines, Gambling, Risk
Fonte: Pixabay

A linguagem dessa indústria é digna de nota: predict behaviour (prever o comportamento), influence/change behaviour (influenciar/modificar o comportamento), attention extraction model (modelo de extração de atenção – o modelo de negócio das empresas em questão, segundo os entrevistados), e por aí vai. A lógica dos caça-níqueis, explicada e claramente exemplificada aqui por Tristan Harris, um dos entrevistados no documentário, perpassa a forma como muitas dessas tecnologias operam.

Office, People, Accused, Accusing, Bullying, Crowd
Fonte: Pixabay

Também achei interessante que tantos dos entrevistados articulem suas preocupações em termos de linguagem que remete a batalhas e guerra. As empresas estão em “guerra” pela nossa atenção, os “críticos” estão em “guerra” contra as empresas, as pessoas estão em “guerra” contra as tecnologias, as redes, as estratégias das empresas, enfim, a velha (porém talvez não familiar para muitos) metáfora conceitual discussão é guerra aparece de múltiplas formas no documentário.

Duas das entrevistadas – Shoshana Zuboff, autora de The Age of Surveillance Capitalism (sem tradução para o português – o livro saiu em janeiro de 2019), e Cathy O’Neil, autora de Weapons of Math Destruction (também sem tradução para o português, mas com uma tradução para o espanhol – o original é de 2016) – têm pouco tempo de tela, mas sua presença é essencial e, definitivamente, vale a pena saber mais sobre o que elas têm a dizer. De perspectivas diferentes, ambas são estudiosas que analisam criticamente as implicações dos usos autais de dados. Zuboff, em particular, discorda da dita “máxima” da Web citada no documentário – “se o produto não é pago, você é o produto”. Em The Age of Surveillance Capitalism (veja aqui um comentário e entrevista com a autora feita pelo professor John Naughton, comentarista no jornal The Guardian), ela sugere que não somos o produto, mas sim algo bem pior. Sendo um pouco relaxada com a questão de direitos autorais, copio abaixo a página do livro que mostra nossa localização nesse sistema, mais consistente com o papel destinado ao humano na Matrix do que com o romantizado produto ao qual a máxima se refere.

Em S. Zuboff The Age of Surveillance Capitalism (Nova Iorque: Public Affairs, 2019, p. 97)
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Fonte: Wikipedia

O Dilema das Redes é um docudrama, isto é, há uma narrativa entremeada aos fragmentos de entrevistas que ajuda a contextualizar e a encorajar reflexão. Usos da ficção como porta de entrada para a reflexão crítica me interessam, e, nesse sentido, acho que o documentário faz um bom uso do dispositivo (se bem que, em uma discussão com alunos, houve algumas reclamações no sentido do cenário representado nessa narrativa ser um pouco “tosco” – eu diria estereotípico, mas, ainda assim, para mim, efetivo). Em particular, ter o ator Vincent Kartheiser no papel dos algoritmos me pareceu uma forma de ironizar, ao menos em parte, a lógica que permeia o universo do marketing a subsidiar muito do que os entrevistados dizem e criticam – lembrando que Kartheiser foi um dos personagens principais da excelente série Mad Men, que retrata o mundo da publicidade estadunidense na década de 1960. O personagem de Kartheiser era o mais jovem dos publicitários em Mad Men, mas, rapidamente, ele se adapta às práticas chauvinistas e sórdidas dos colegas – para mim, essa escolha é representativa de como algoritmos concretizam (e aperfeiçoam) a lógica de exploração do ser humano tão criticada pelos entrevistados.

Outro aspecto que observei é que quase todos os comentários são apresentados em plano frontal, sugerindo que os entrevistados estão falando diretamente para o espectador, como se não houvesse roteiro, entrevistador, mediação, como se o documentário apresentasse fatos incontroversos, retratos fieis. A verdade?

Há muito mais a dizer, mas, para mim, a ironia máxima do documentário, porém, decorre do contraste entre as descrições das táticas concretizadas nas plataformas e as propostas de ações de “resistência” sugeridas no final do documentário. Entendo que, para muita gente, o programa terá sido (ou será) perturbador, e que os produtores talvez não tenham querido deixar o público com nenhuma espécie de “gosto amargo” ao final. Mas, francamente, concordo com o que este texto diz sobre os limites da crítica proposta, em parte porque as sugestões são borderline naive:

  • Usar plataformas para emitir opiniões (e alguém precisa de encorajamento para isso?)
  • Desligar notificações (apenas pesquisas empíricas podem confirmar isto, mas a minha intuição é que grande parte das pessoas já faz isso, pelo menos parcialmente)
  • Desinstalar apps da categoria “perda de tempo” (Facebook está nessa categoria?)
  • Escolher o próximo vídeo a assistir, em vez de seguir sugestões de plataformas (sinceramente, as recomendações da Netflix não podem ser puramente baseadas no que já assisti – as suas são? A mim parecem mais promoção do que personalização…)
  • Verificar fatos (os meninos e meninas do Vale do Silício claramente não estão a par das muitas discussões sobre as múltiplas formas de letramento que nós, na Educação, temos discutido: letramento midiático, letramento digital, letramento científico etc. etc. etc.)

Bem, a lista é maior, mas anotei apenas alguns que me fizeram rir (ou quase), pois todas as explicações dadas pelos entrevistados são indicações claras de que a tecnologia não é neutra (veja aqui um exemplo simples de como escolhas dos desenvolvedores são embutidas nos objetos que desenvolvem). No final, após tantos exemplos ao contrário, o documentário volta ao argumento ironizado no quadrinho ao lado.

Resumindo: acho que vale a pena assistir O Dilema das Redes – mas é preciso questionar as questões nele postas.

Inovação e/ou gourmetização na educação

Fazendo uma faxina geral em meus espaços de armazenagem, eis que encontro uma postagem contendo apenas um link, um envelope praticamente vazio, esquecido na pasta de rascunhos há muitos meses. Este vídeo me havia passado na newsfeed do Facebook, e, naquele momento, eu estava engajada em uma reflexão sobre “inovação na educação”. Esse é um assunto que, no geral, acho meio tedioso (qualquer coisa que sugira proselitismo do novo me entedia), e o vídeo apareceu em um momento oportuno para me distrair.

Para mim, não é uma questão de ser contra a favor da “inovação na educação” (o que quer que isso signifique para quem isso significa algo), mas sim de questionar as defesas exageradamente otimistas da ideia (e os ataques a ela também). Para mim, o vídeo seria um excelente disparador de uma discussão sobre o assunto, que deveria integrar exemplos diversos de “gourmetização” de práticas até tradicionais, “(re)empacotadas” e “embrulhadas” com novos rótulos, para maximizar as vendas…

Fica então registrado o link.