Poe, argila e escrita acadêmica (não necessariamente nessa ordem)

Imagem de Jochen Haltern @ Pixabay

Estamos (o grupo DEdTec) com um livro no prelo intitulado Educação, tecnologia e ficção: da distopia à esperança, produto de discussões que tivemos ao longo da pandemia (que ainda não acabou, apesar dos diversos decretos). Para mim, mais importante do que o produto foi o processo de criá-lo: um exercício de escrita colaborativa.

Na experiência, ficou claro que escrever é sempre algo que pode trazer diferentes medidas de angústia, um certo “sofrimento” (diferentes manifestações do proverbial “sangue, suor e lágrimas”), até, como qualquer trabalho criativo. Contudo, é muito difícil desconstruir a mítica do “gênio” e da noção de que obras inteiras sairiam prontas e perfeitas da mente de seu criador (na música, temos sempre citadas as partituras de Mozart, que têm pouquíssimos rabiscos, mudanças ou correções). Acho lamentável e muito destrutivo para qualquer autor (iniciante ou não) imaginar, romanticamente, que um texto simplesmente “brota” ou se “manifesta” completo quando pena é lançada ao papel sob a luz de velas…

Edgar Allan Poe (merchandise à venda em múltiplos sites – porque nada escapa da mercantilização)

Em The Philosophy of Composition, ensaio de 1846, o escritor Edgar Allan Poe reconta como compôs sua obra (talvez) mais conhecida: o poema The Raven (aqui em tradução, para o português, de Machado de Assis). É uma lindeza de texto, que me foi apresentado por minha filha (ao longo de sua formação, ela me re-forma). Achei uma leitura deliciosa para quem gosta de bastidores, mesmo inventados (minha primeira pergunta para ela foi se o texto seria, também, ficcional).

Enfim, Poe começa o texto dizendo que seu processo de composição é diferente do que seria o “usual”, e situa a escrita do ensaio da seguinte forma:

I have often thought how interesting a magazine paper might be written by any author who would – that is to say, who could – detail, step by step, the processes by which any one of his compositions attained its ultimate point of completion. Why such a paper has never been given to the world, I am much at a loss to say – but, perhaps, the autorial vanity has had more to do with the omission than any other cause. Most writers – poets in special – prefer having it understood that they compose by a species of fine frenzy – an ecstatic intuition – and would positively shudder at letting the public take a peep behind the scenes, at the elaborate and vacillating crudities of thought – at the true purposes seized only at the last moment – at the innumerable glimpses of idea that arrived not at their maturity of full view – at the fully-matured fancies discarded in despair as unmanageable – at the cautious selections and rejections – at the painful erasures and interpolations – in a word, at the wheels and pinions – the tackle for scene-shifting – the step-ladders, and demon-traps – the cock’s feathers, the red paint and the black patches, which, in ninety-nine cases out of a hundred, constitute the properties of the literary histrio.

Poe se refere a escritores e poetas (“em particular”), em uma descrição (que não poderia deixar de ser poética) das idas e vindas do trabalho criativo, prenunciando a apresentação detalhada (ainda que possa ser fictícia) de seus próprios processos. Outro dia em que tenha tempo, buscarei uma tradução (seria um enorme atrevimento meu tentar traduzir qualquer trecho deste texto).

A questão é que imagens românticas como a que pintei acima apenas causam angústia e são, assim, improdutivas. Na vida acadêmica, produzir não é apenas um imperativo burocrático de avaliações de pesquisa, mas parte integrante do que fazemos. Precisamos trocar ideias. Com isso, colocá-las no papel (hoje em dia, na tela) deveria ser algo corriqueiro. Manter um blog, por exemplo, pode ser um exercício com duplo propósito: por um lado, desenvolver a escrita em si; por outro, praticar uma forma importante de desapego, já que nenhum texto, mesmo (pretensamente, ou por força das circunstâncias) finalizado, é perfeito

(E eu, pelo menos, além de aceitar, de bom grado, imperfeições – grandes ou pequenas, como aqueles pequenos escorregões que mesmo editores muito experientes podem deixar escapar -, sempre me reservo o direito de mudar de ideia com o tempo).

Imagem de Nicole @ Pixabay

Acho importante repensar essas ideias herdadas e compreender que escrever não é “psicografar” (escrever dessa forma na academia me pareceria perigosamente próximo ao plágio). Uma analogia que comecei a explorar para fazer essa discussão com orientandos é a de que escrever um texto é como esculpir uma cabeça em argila (algo adorável que experimentei fazer quando era doutoranda, e que gostaria de retomar um dia). Creio que nenhum escultor cria um nariz ou orelha “perfeitos” isoladamente do resto da cabeça: a cabeça vai tomando forma em um processo iterativo, de retorno a cada parte à medida que o todo vai se formando na argila.

Esculpindo uma cabeça em argila

Este vídeo é um pouco longo, mas mostra o que descrevi acima (acho que vale assistir, mesmo em velocidade acelerada)

Da mesma forma que seria improdutivo (aliás, acho que impossível) produzir a escultura simplesmente juntando partes criadas isoladamente (a menos que se trate do Sr. Cabeça de Batata), a escrita de um texto tenderia a ficar “emperrada” na busca pela frase ou pelo parágrafo perfeitos. Com isso, acho que é preciso uma boa dose de desprendimento e alguma coragem para criar algo que poderá parecer desproporcional, até “monstruoso” (inicialmente, pelo menos), mas que, aos poucos, originará algo significativo, talvez até belo. Na verdade, “monstruosa” é a busca inglória por uma perfeição inalcançável.

Nesse espírito, e ciente de que metáforas e analogias tendem a se “quebrar” quando postas sob uma lupa, termino meu próprio exercício de hoje (mesmo que acabe passando novamente por constrangimentos acadêmicos).