Redes, dilema e ironia

Finalmente assisti o documentário da Netflix que está sendo tão falado, O Dilema das Redes. Há muitas reações e comentários a partir de múltiplas perspectivas já publicados na rede, e a hype em alguns dos textos que li estava meio que me tirando o ânimo, mas acabei me rendendo à curiosidade.

Para quem tem pouca ou nenhuma reflexão sobre tecnologia, o documentário é bem interessante como porta de entrada para perspectivas mais críticas, pois, ao apresentar alguns aspectos dos bastidores da indústria das tecnologias digitais, sugere que nem tudo são flores, como muitos entusiastas das “redes” nos tentam convencer. Se você está começando a duvidar dos discursos do otimismo desmedido em torno da tecnologia, vale dar uma lida nesta matéria para aquele empurrãozinho extra…

Enfim, estas são as linhas gerais do documentário: a partir de entrevistas com ex-empregados de grandes empresas do Vale do Silício (incluindo as “5 grandes” ou GAFAM – Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsoft), O Dilema das Redes traz uma variedade de questionamentos relativos às táticas que essas empresas utilizam em sua “competição por nossa atenção”, bem como suas decorrências. Veja aqui uma postagem bem didática que inclui excelentes recomendações complementares de vídeos e textos (acesso aberto) de alguns dos entrevistados.

Casino, Arcade, Slot Machines, Machines, Gambling, Risk
Fonte: Pixabay

A linguagem dessa indústria é digna de nota: predict behaviour (prever o comportamento), influence/change behaviour (influenciar/modificar o comportamento), attention extraction model (modelo de extração de atenção – o modelo de negócio das empresas em questão, segundo os entrevistados), e por aí vai. A lógica dos caça-níqueis, explicada e claramente exemplificada aqui por Tristan Harris, um dos entrevistados no documentário, perpassa a forma como muitas dessas tecnologias operam.

Office, People, Accused, Accusing, Bullying, Crowd
Fonte: Pixabay

Também achei interessante que tantos dos entrevistados articulem suas preocupações em termos de linguagem que remete a batalhas e guerra. As empresas estão em “guerra” pela nossa atenção, os “críticos” estão em “guerra” contra as empresas, as pessoas estão em “guerra” contra as tecnologias, as redes, as estratégias das empresas, enfim, a velha (porém talvez não familiar para muitos) metáfora conceitual discussão é guerra aparece de múltiplas formas no documentário.

Duas das entrevistadas – Shoshana Zuboff, autora de The Age of Surveillance Capitalism (sem tradução para o português – o livro saiu em janeiro de 2019), e Cathy O’Neil, autora de Weapons of Math Destruction (também sem tradução para o português, mas com uma tradução para o espanhol – o original é de 2016) – têm pouco tempo de tela, mas sua presença é essencial e, definitivamente, vale a pena saber mais sobre o que elas têm a dizer. De perspectivas diferentes, ambas são estudiosas que analisam criticamente as implicações dos usos autais de dados. Zuboff, em particular, discorda da dita “máxima” da Web citada no documentário – “se o produto não é pago, você é o produto”. Em The Age of Surveillance Capitalism (veja aqui um comentário e entrevista com a autora feita pelo professor John Naughton, comentarista no jornal The Guardian), ela sugere que não somos o produto, mas sim algo bem pior. Sendo um pouco relaxada com a questão de direitos autorais, copio abaixo a página do livro que mostra nossa localização nesse sistema, mais consistente com o papel destinado ao humano na Matrix do que com o romantizado produto ao qual a máxima se refere.

Em S. Zuboff The Age of Surveillance Capitalism (Nova Iorque: Public Affairs, 2019, p. 97)
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Fonte: Wikipedia

O Dilema das Redes é um docudrama, isto é, há uma narrativa entremeada aos fragmentos de entrevistas que ajuda a contextualizar e a encorajar reflexão. Usos da ficção como porta de entrada para a reflexão crítica me interessam, e, nesse sentido, acho que o documentário faz um bom uso do dispositivo (se bem que, em uma discussão com alunos, houve algumas reclamações no sentido do cenário representado nessa narrativa ser um pouco “tosco” – eu diria estereotípico, mas, ainda assim, para mim, efetivo). Em particular, ter o ator Vincent Kartheiser no papel dos algoritmos me pareceu uma forma de ironizar, ao menos em parte, a lógica que permeia o universo do marketing a subsidiar muito do que os entrevistados dizem e criticam – lembrando que Kartheiser foi um dos personagens principais da excelente série Mad Men, que retrata o mundo da publicidade estadunidense na década de 1960. O personagem de Kartheiser era o mais jovem dos publicitários em Mad Men, mas, rapidamente, ele se adapta às práticas chauvinistas e sórdidas dos colegas – para mim, essa escolha é representativa de como algoritmos concretizam (e aperfeiçoam) a lógica de exploração do ser humano tão criticada pelos entrevistados.

Outro aspecto que observei é que quase todos os comentários são apresentados em plano frontal, sugerindo que os entrevistados estão falando diretamente para o espectador, como se não houvesse roteiro, entrevistador, mediação, como se o documentário apresentasse fatos incontroversos, retratos fieis. A verdade?

Há muito mais a dizer, mas, para mim, a ironia máxima do documentário, porém, decorre do contraste entre as descrições das táticas concretizadas nas plataformas e as propostas de ações de “resistência” sugeridas no final do documentário. Entendo que, para muita gente, o programa terá sido (ou será) perturbador, e que os produtores talvez não tenham querido deixar o público com nenhuma espécie de “gosto amargo” ao final. Mas, francamente, concordo com o que este texto diz sobre os limites da crítica proposta, em parte porque as sugestões são borderline naive:

  • Usar plataformas para emitir opiniões (e alguém precisa de encorajamento para isso?)
  • Desligar notificações (apenas pesquisas empíricas podem confirmar isto, mas a minha intuição é que grande parte das pessoas já faz isso, pelo menos parcialmente)
  • Desinstalar apps da categoria “perda de tempo” (Facebook está nessa categoria?)
  • Escolher o próximo vídeo a assistir, em vez de seguir sugestões de plataformas (sinceramente, as recomendações da Netflix não podem ser puramente baseadas no que já assisti – as suas são? A mim parecem mais promoção do que personalização…)
  • Verificar fatos (os meninos e meninas do Vale do Silício claramente não estão a par das muitas discussões sobre as múltiplas formas de letramento que nós, na Educação, temos discutido: letramento midiático, letramento digital, letramento científico etc. etc. etc.)

Bem, a lista é maior, mas anotei apenas alguns que me fizeram rir (ou quase), pois todas as explicações dadas pelos entrevistados são indicações claras de que a tecnologia não é neutra (veja aqui um exemplo simples de como escolhas dos desenvolvedores são embutidas nos objetos que desenvolvem). No final, após tantos exemplos ao contrário, o documentário volta ao argumento ironizado no quadrinho ao lado.

Resumindo: acho que vale a pena assistir O Dilema das Redes – mas é preciso questionar as questões nele postas.

Dados…

Neste semestre, estou dando uma disciplina sobre big data na educação para uma turma de pós. A bibliografia básica inclui os excelentes Weapons of Math Destruction, de Cathy O’Neil (2017) e Big Data in Education: the future of learning, policy and practice, de Ben Williamson. Há traduções para o espanhol de ambos, mas nada de versões em português.

Diante de todo o barulho em torno do documentário The Social Dilemma, lançado recentemente pela Netflix (veja um comentário entusiástico da revista Wired aqui, e outro mais centrado na The Verge), começo a me cansar de ouvir críticas que se reduzem a “estão roubando seus dados” ou “não há privacidade”. Nada disso é novo (lembro muito bem de uma conversa com um colega especialista em tecnologias de internet, que já no início dos anos 2000 falava sobre essas e muitas outras questões) – este artigo mostra um esboço de linha do tempo dessa febre, e aqui estão outras recomendações de documentários também interessantes.

Ao longo do semestre, estou coletando, junto com a turma, matérias midiáticas sobre o assunto. Aqui estão os links mais recentes na lista:

Estou ainda catalogando artigos (acadêmicos), muitos já lidos, alguns à espera de maior atenção (já há muita literatura e diversas revisões sistemáticas dessa literatura, e todo dia sai algo novo), outros ainda a ler (aqui confesso que há muita coisa que me parece bastante tediosa…), então escolhi trabalhar com dois livros excelentes como base. Mais adiante, quero introduzir algumas partes de The Data Revolution: big data, open data, data infrastructures and their consequences, de Rob Kitchin (2014) – vou adicionando material ao poucos, mas as matérias midiáticas são essenciais para manter o pessoal com os olhos abertos para o que se passa ao nosso redor.

Em paralelo à catalogação, venho refletindo sobre o que vejo como uma questão básica que precisa de muito mais atenção: como diz O’Neil em seu livro com todas as letras, modelos são essenciais à construção de corpos de dados (independentemente de sua magnitude), ou seja, dados são representações em categorias pré-determinadas, e daí decorrem, em parte, seus viéses. As dificuldades aqui me parecem enormes, pois, até para quem trabalha com dados de alguma forma (inclusive dados qualitativos), a ideia de que são construídos e não simplesmente encontrados “naturalmente” demanda discussão para que se possa desconstruir o que o “senso comum” tende a assumir.

Aliás, um achado da manhã, ahead of print: Managing by data: algorithmic categories and organizing, de Cristina Alaimo e Jannis Kallinikos – parece interessante para a discussão sobre categorias que tenho em mente (e nela está também Women, Fire and Dangerous Things de George Lakoff, mas esse não conseguirei introduzir na disciplina). Então, mais um acaba de aterrissar no topo da pilha de leituras ainda para hoje.