Falando em história da tecnologia educacional… Comenius!

Lembrando de uma postagem de algumas semanas atrás, sobre a relevância da História nos estudos da Educação e Tecnologia: acaba de sair uma coautoria minha com os queridos Thiago Cabrera e Márcio Lemgruber: “Comenius, tecnologia e educação: uma perspectiva mumfordiana“, na revista Intersaberes, número especial “Educação e filosofia da tecnologia: perspectiva histórica e debates contemporâneos“.

Eis a proposta:

Comenius é apontado, nos livros de História da Educação, como o fundador da pedagogia moderna. Em sua Didactica Magna, publicada em latim em 1657, o autor propôs uma forma de organização detalhada como arcabouço para um sistema educacional inclusivo, um modelo baseado em metáforas e analogias relacionadas à produção manufatureira em expansão em sua época. Este artigo discute a proposta de
Comenius como uma solução técnica para a democratização da educação que se mostra uma importante precursora de formas de pensar a relação entre a educação e a tecnologia na contemporaneidade. O texto examina aspectos da contribuição de Comenius a partir de uma perspectiva inspirada na obra de Lewis Mumford, historiador e filósofo da tecnologia. Em particular, toma o conceito mumfordiano de “megamáquina” para discutir a “didacografia” comeniana, que é apresentada na Didactica em uma analogia detalhada entre a tipografia e a sala de aula. Nessa ótica, o sistema educacional de Comenius seria uma megamáquina composta essencialmente de seres humanos mecanizados, embora não prescinda de artefatos como modelos ou mesmo antecipe a perspectiva de mecanizações mais radicais.

Comenius é um personagem fascinante, um bom “lugar” para começar a desvelar enraizamentos históricos de ideias que sustentam a tecnologia educacional contemporânea, tomando metáforas como eixo teórico fundamental.

Baixe aqui o artigo completo.

Livro *Metaphors of Ed Tech*

Capa do livro

Acaba de sair o novo livro de Martin Weller, Metaphors of Ed Tech, publicado pela Athabasca University Press e disponível para ler on-line aqui e baixar aqui. Vinha aguardando essa publicação desde o anúncio inicial (já não me lembro exatamente quando), pois parecer ser diretamente relevante a estudos que venho conduzindo desde 2017.

Baixei e comecei a ler (levarei um tempo para finalizar, devido a outras demandas, mas ontem consegui dar conta da introdução e da conclusão), e a introdução sugere que Weller seguiu a linha de uma proposta que comentei em uma postagem anterior: o uso criativo e lúdico de metáforas. Ele anuncia o seguinte (p. 12):

This is not primarily a book about metaphors, or metaphorical reasoning, but a book of metaphors.

Tenho alguns “livros de metáforas” (nenhum relativo a tecnologias educacionais) bastante divertidos – a leitura, então, parece promissora.

Dei uma olhada nas referências também, e identifiquei alguns textos que acho fundamentais nos estudos da metáfora na educação – como este (1998). A obra seminal de Lakoff e Johnson também está lá, na fundamentação teórica (em português, a excelente tradução do Mercado das Letras está indisponível aqui, mas encontrei aqui, ainda que a um preço meio assustador – como todos os livros no momento).

O autor parece ter privilegiado uma perspectiva instrumental da metáfora como ferramenta para o uso e implantação de tecnologias na educação. A palavra “ferramenta/s” (tool/s) aparece 71 vezes nas 199 páginas do livro (incluindo nessa contagem o material pré e pós-textual). A ver o que isso me dirá.

Dando uma diagonal rápida, vejo que Weller articula o livro a seu blog (um projeto que ele mantém há muitos anos) e a produções anteriores (em particular, seu livro The Digital Scholar). Também me parece haver um foco na Educação Superior, em particular, a distância (mais uma articulação do autor, aqui, a seu local de atuação), e um capítulo dedicado ao online pivot, que chamei de “virada on-line” no início da pandemia.

Tentarei ler logo (não deverá ser difícil, pois a escrita dele é sempre objetiva e fluente) e resenhar.

Poe, argila e escrita acadêmica (não necessariamente nessa ordem)

Imagem de Jochen Haltern @ Pixabay

Estamos (o grupo DEdTec) com um livro no prelo intitulado Educação, tecnologia e ficção: da distopia à esperança, produto de discussões que tivemos ao longo da pandemia (que ainda não acabou, apesar dos diversos decretos). Para mim, mais importante do que o produto foi o processo de criá-lo: um exercício de escrita colaborativa.

Na experiência, ficou claro que escrever é sempre algo que pode trazer diferentes medidas de angústia, um certo “sofrimento” (diferentes manifestações do proverbial “sangue, suor e lágrimas”), até, como qualquer trabalho criativo. Contudo, é muito difícil desconstruir a mítica do “gênio” e da noção de que obras inteiras sairiam prontas e perfeitas da mente de seu criador (na música, temos sempre citadas as partituras de Mozart, que têm pouquíssimos rabiscos, mudanças ou correções). Acho lamentável e muito destrutivo para qualquer autor (iniciante ou não) imaginar, romanticamente, que um texto simplesmente “brota” ou se “manifesta” completo quando pena é lançada ao papel sob a luz de velas…

Edgar Allan Poe (merchandise à venda em múltiplos sites – porque nada escapa da mercantilização)

Em The Philosophy of Composition, ensaio de 1846, o escritor Edgar Allan Poe reconta como compôs sua obra (talvez) mais conhecida: o poema The Raven (aqui em tradução, para o português, de Machado de Assis). É uma lindeza de texto, que me foi apresentado por minha filha (ao longo de sua formação, ela me re-forma). Achei uma leitura deliciosa para quem gosta de bastidores, mesmo inventados (minha primeira pergunta para ela foi se o texto seria, também, ficcional).

Enfim, Poe começa o texto dizendo que seu processo de composição é diferente do que seria o “usual”, e situa a escrita do ensaio da seguinte forma:

I have often thought how interesting a magazine paper might be written by any author who would – that is to say, who could – detail, step by step, the processes by which any one of his compositions attained its ultimate point of completion. Why such a paper has never been given to the world, I am much at a loss to say – but, perhaps, the autorial vanity has had more to do with the omission than any other cause. Most writers – poets in special – prefer having it understood that they compose by a species of fine frenzy – an ecstatic intuition – and would positively shudder at letting the public take a peep behind the scenes, at the elaborate and vacillating crudities of thought – at the true purposes seized only at the last moment – at the innumerable glimpses of idea that arrived not at their maturity of full view – at the fully-matured fancies discarded in despair as unmanageable – at the cautious selections and rejections – at the painful erasures and interpolations – in a word, at the wheels and pinions – the tackle for scene-shifting – the step-ladders, and demon-traps – the cock’s feathers, the red paint and the black patches, which, in ninety-nine cases out of a hundred, constitute the properties of the literary histrio.

Poe se refere a escritores e poetas (“em particular”), em uma descrição (que não poderia deixar de ser poética) das idas e vindas do trabalho criativo, prenunciando a apresentação detalhada (ainda que possa ser fictícia) de seus próprios processos. Outro dia em que tenha tempo, buscarei uma tradução (seria um enorme atrevimento meu tentar traduzir qualquer trecho deste texto).

A questão é que imagens românticas como a que pintei acima apenas causam angústia e são, assim, improdutivas. Na vida acadêmica, produzir não é apenas um imperativo burocrático de avaliações de pesquisa, mas parte integrante do que fazemos. Precisamos trocar ideias. Com isso, colocá-las no papel (hoje em dia, na tela) deveria ser algo corriqueiro. Manter um blog, por exemplo, pode ser um exercício com duplo propósito: por um lado, desenvolver a escrita em si; por outro, praticar uma forma importante de desapego, já que nenhum texto, mesmo (pretensamente, ou por força das circunstâncias) finalizado, é perfeito

(E eu, pelo menos, além de aceitar, de bom grado, imperfeições – grandes ou pequenas, como aqueles pequenos escorregões que mesmo editores muito experientes podem deixar escapar -, sempre me reservo o direito de mudar de ideia com o tempo).

Imagem de Nicole @ Pixabay

Acho importante repensar essas ideias herdadas e compreender que escrever não é “psicografar” (escrever dessa forma na academia me pareceria perigosamente próximo ao plágio). Uma analogia que comecei a explorar para fazer essa discussão com orientandos é a de que escrever um texto é como esculpir uma cabeça em argila (algo adorável que experimentei fazer quando era doutoranda, e que gostaria de retomar um dia). Creio que nenhum escultor cria um nariz ou orelha “perfeitos” isoladamente do resto da cabeça: a cabeça vai tomando forma em um processo iterativo, de retorno a cada parte à medida que o todo vai se formando na argila.

Esculpindo uma cabeça em argila

Este vídeo é um pouco longo, mas mostra o que descrevi acima (acho que vale assistir, mesmo em velocidade acelerada)

Da mesma forma que seria improdutivo (aliás, acho que impossível) produzir a escultura simplesmente juntando partes criadas isoladamente (a menos que se trate do Sr. Cabeça de Batata), a escrita de um texto tenderia a ficar “emperrada” na busca pela frase ou pelo parágrafo perfeitos. Com isso, acho que é preciso uma boa dose de desprendimento e alguma coragem para criar algo que poderá parecer desproporcional, até “monstruoso” (inicialmente, pelo menos), mas que, aos poucos, originará algo significativo, talvez até belo. Na verdade, “monstruosa” é a busca inglória por uma perfeição inalcançável.

Nesse espírito, e ciente de que metáforas e analogias tendem a se “quebrar” quando postas sob uma lupa, termino meu próprio exercício de hoje (mesmo que acabe passando novamente por constrangimentos acadêmicos).

Mesa: Inteligência Artificial na Educação

Participei ontem de uma mesa coordenada por Murillo Marschner, professor do Dept. de Sociologia da USP, junto com o Luis Junqueira, sócio-fundador da Letrus, plataforma de tecnologia educacional que utiliza Inteligência Artificial (IA) para auxiliar no letramento de estudantes

O evento foi o último de um ciclo de mesas redondas sobre as oportunidades e os desafios que a IA impõe à democracia, que vem acontecendo desde julho de 2021 com o objetivo de introduz alguns dos temas que serão discutidos durante o I Seminário Internacional Inteligência Artificial: Democracia e Impactos Sociais, a ser realizado em 13 e 14 dezembro de 2021 sob a organização do Center for Artificial Intelligence, C4AI, da USP, e do Observatório da Inovação e Competitividade, OIC-IEA-USP)

Assista a conversa no link a seguir.

Ensino Frankenstein

Fonte: Pixabay

Têm pipocado por aí muitas propostas de formas que a educação pós-pandemia (de fato, educação na pandemia, pois ela ainda não acabou) poderá ou deverá tomar – e elas me preocupam.

Vejo muitos casos de mais do mesmo, mas com menos… menos carteiras para números menores de estudantes nos mesmos espaços, organizados da mesma forma de sempre (carteiras enfileiradas direcionadas para algum tipo de quadro). Tenho visto também casos de mais do mesmo, mas com mais: de novo, a mesma organização de objetos no espaço da sala, mas separados por divisórias transparentes. Veja algumas imagens aqui (há coisas interessantes também acontecendo: veja aqui algumas fotos de uma experiência na Espanha que viralizou a partir de uma foto que realmente não deu ideia do que teria sido tentado)

Além disso, o velho rótulo de “ensino híbrido” vem sendo resgatado, reinventado, em alguns casos, com nomes novos, em outros, com propostas de modelos bastante estranhas. Em décadas anteriores, mas já após o surgimento da Web, o conceito de ensino híbrido desafiava a polarização entre ensino presencial e ensino on-line no que diz respeito ao tempo de contato em professor e alunos: esquemas de ensino híbrido seriam constituídos de momentos presenciais (síncronos) e momentos on-line (assíncronos). O planejamento envolvido aqui é bastante trabalhoso, sem contar o suporte aos alunos. De qualquer forma, não é nada que instituições de EaD já não viessem fazendo, ainda que em contextos e concretizações diferentes (inclusive anteriormente à internet).

Pois a ideia da hora me parece ser um tal “ensino híbrido” (há outros nomes para a mesma ideia) no qual o professor é confrontado com câmera(s) e telas como “plugins” na velha sala de aula, para que possa “dar sua aula” a estudantes presentes tanto no espaço da sala, quanto via internet. Mas que tipos de interações são possíveis em arranjos assim? Como geri-las? Que efeitos essa combinação de tipos diferentes de presença poderia ter, inclusive, na saúde mental do professor? Em muitos casos, essas experiências serão ou estão sendo gravadas. Por que? Para quê? Como estariam sendo tratadas as questões de direitos de imagem (de professores e alunos) e direitos autorais (se estão sendo tratadas…)?

Essas são apenas algumas questões que me ocorrem em uma aproximação inicial ao enorme desafio posto por esse arranjo, um desafio pedagógico e, em sua base, comunicacional. O arranjo me parece uma enorme gambiarra (termo que guardo com carinho dos meus tempos de estudante de engenharia, pois serve para tanta coisa relacionada à Educação e Tecnologia), algo criado a partir de proverbiais “puxadinhos” que partem de uma ideia que, em si, já precisa ser repensada, ou seja, um cenário que apenas o solucionismo tecnológico poderia enxergar como saída para qualquer coisa.

Mesmo com o avanço da vacinação, estamos diante de incógnitas fundamentais que deixam as instituições educacionais com problemas logísticos enormes, mas que também revelam problema que já existiam. Dentre eles, a questão das salas de aulas lotadas e o foco na hora-aula como parâmetro fundamental na construção do currículo. Acho que esses são os pontos para começar a discussão. Sem isso, temo que estaremos aceitando (que seja por omissão) a premissa de inevitabilidade da inovação por meio de tecnologias digitais e, assim, contribuindo para a criação de aberrações sob um modelo de Ensino Frankenstein.

Lançamento de *Deseducando a Educação: mentes, materialidades e metáforas*

Uma das mesas a serem realizados durante o I Seminário Internacional Reconceitualizando a Educação, organizado pelo Departamento de Educação da PUC-Rio, marcará a apresentação do livro Deseducando a Educação: mentes, materialidades e metáforas. A mesa será composta pelos Profs. Ralph Bannell, Mylene Mizrahi e Giselle Ferreira (eu!), organizadores do volume, com mediação do Prof. Karl Erik Schollhammer, do Dept. de Letras da PUC-Rio.

A coletânea reúne textos em torno dos três eixos temáticos que estruturam o livro: mentes, materialidades e metáforas. A primeira parte, org. pelo Prof. Ralph, focaliza teorização recente sobre a cognição. A segunda parte, sob a responsabilidade da Profa. Mylene, traz uma gama de contribuições muito interessantes da Antropologia. Por fim, a minha parte congrega textos que exploram metáforas como eixos de discussão de questões da educação. O livro contou com a colaboração de autores nacionais e internacionais bastante respeitados em suas áreas de atuação.

Quer saber mais? Junte-se a nós no dia 15! A conversa será transmitida pelo canal do Departamento de Educação no YouTube, neste link.

O livro será disponibilizado como e-Book de acesso livre – divulgaremos os detalhes de acesso assim que possível.

Ah! Antes de clicar em “publicar”, deixo o convite também para, quem achar interessante e puder, que nos ajude a divulgar – o cartaz pode ser baixado aqui.

Roda de conversa: METÁFORAS

Para os interessados em participar na roda de conversa que irei mediar no I Seminário Internacional Recontextualizando a Educação: clique aqui para preencher o formulário de inscrição.

Contarei com a presença de meu precioso parceiro de pesquisas e escritas, o Prof. Márcio Lemgruber, e do Prof. Diogo Gurgel, do Dept. de Filosofia da UFF, estudioso das teorias da metáfora.

Pretendemos gravar a discussão e disponibilizá-la posteriormente no Canal do YouTube do Departmento de Educação da PUC-Rio. Avisarei aqui quando isto for feito, caso haja interessados que não possam assistir ao vivo.

O link será enviado para os e-mails cadastrados no dia anterior – aguardo você lá!

Se quiser nos ajudar a divulgar, baixe aqui o cartaz.

I Seminário Internacional *Reconceitualizando a Educação* na PUC-Rio

Em 15 e 16 de abril próximos, será realizado o I Seminário Internacional *Reconceitualizando a Educação*, organizado por participantes no projeto Formação Humana, Cultura e Aprendizagens, coordenado pela Profa. Rosália Duarte.

O projeto envolve vários outros dos meus colegas do Departamento de Educação da PUC-Rio na construção de uma rede internacional de parcerias de pesquisa, com financiamento do Programa Capes-Print. O coordenador internacional do projeto é o Prof. Gustavo Fischman, da Arizona State University.

Teremos diversas mesas e rodas de conversas sobre assuntos bastante interessantes, e a primeira delas será dedicada ao lançamento do livro Deseducando a Educação: mentes, materialidades e metáforas, que compõe a fundamentação teórica do projeto. Minha contribuição ao livro focaliza a parte relativas às metáforas.

O livro está saindo do forno, assim como a programação e o resto do material promocional do evento. Assim que estiver com tudo em mãos, postarei aqui.

As mesas serão transmitidas pelo Canal do Dept. de Educação da PUC-Rio no YouTube, e as rodas serão feitas pelo Zoom (com inscrições via formulários no Google Drive).

Em breve!

Entre a ficção e a realidade: uma experiência

No 7o Colóquio de Pesquisas em Educação e Mídias, que aconteceu on-line na semana passada, apresentei, junto com alguns dos integrantes do DEdTec, um relato sobre o trabalho que conduzimos em 2020.2: Uma experiência de formação com a ficção durante a pandemia: da distopia à esperança. Eis a proposta original:

Apesar da euforia em torno das tecnologias de internet como meios para manter as instituições educacionais em funcionamento durante a pandemia de covid-19, a realidade representada em relatos de jornais, blogs e artigos científicos é bastante diversa. Mundo afora, vidas estão sendo profundamente afetadas (ou, infelizmente, perdidas), e, no âmbito da educação em um país com desigualdades tão marcantes quanto o nosso, professores e estudantes têm enfrentado desafios, em alguns casos, intransponíveis. Mais do que nunca, talvez, a profissão docente se revela como uma das profissões do cuidado: somos formadores de seres humanos. Em particular, na crise que estamos vivendo, nossas propostas pedagógicas precisam superar uma visão “conteudista” do currículo e considerar as possibilidades e limites do aqui e agora, integrando-as, na medida do possível, em nossas ações junto aos nossos alunos.

Nesse sentido, esta proposta baseia-se em uma reflexão sobre uma experiência conduzida, no segundo semestre de 2020, com um grupo de estudantes em processo de formação para a pesquisa em Educação. Na esteira de experimentações anteriores (por ex., Ferreira et al. 2020; Rosado et al, 2015), e inspirada em literatura que explora o potencial da ficção como um recurso formativo (por ex., Aquino & Ribeiro, 2011; Lemos, 2016), a experiência em questão teve dois objetivos principais: (1) apoiar o desenvolvimento de criticidade acerca da relação entre a educação e a tecnologia, utilizando cenários ficcionais que exploram a relação entre humano e máquina; (2) proporcionar um espaço de discussão que possibilitasse a articulação entre o acadêmico e o não acadêmico, sobretudo o pessoal e o vivido. Nesse sentido, foram selecionadas algumas obras de ficção distópica como base do trabalho do grupo ao longo do semestre, complementadas com textos acadêmicos (incluindo Postman, 2005 [1985], Coeckelbergh, no prelo; Haraway, 2009 [1991], dentre outros).  

As seguintes obras foram examinadas em encontros síncronos semanais: (a) Autofab, episódio do seriado Electric Dreams que revisita e atualiza, para o nosso momento de expansão da Inteligência Artificial e criação de robôs antropomórficos, o conto de Phillip K. Dick escrito na década de 1950, quando os temores da humanidade tinham por objeto a tecnologia nuclear; (b) Frankenstein, de Mary Shelley, um clássico da literatura gótica vitoriana considerado o precursor da ficção científica; (c) Metropolis, de Fritz Lang, um clássico do expressionismo alemão que, além de constituir um marco na história do cinema, permanece intensamente relevante em sua exploração da relação entre tecnologia e sociedade; e (d) Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, uma obra publicada em 1932 de notável presciência, que mantém viva sua atualidade, em particular, no que diz respeito às decorrências do avanço tecnológico para a reprodução biológica e sociocultural, conforme destacou Postman (2005 [1985]).

A apresentação aqui proposta irá abordar: (a) os fundamentos teórico-conceituais e a metodologia planejada para a experiência; (b) leituras do grupo a partir das obras (e articulações entre elas), focalizando em formas nas quais essas obras podem nos ajudar a compreender e questionar o contexto atual mais amplo no qual a educação se insere; (c) questões imbricadas nos processos comunicacionais remotos síncronos em um contexto considerado, em si mesmo, distópico. Nele, a experiência mostrou-se não apenas um exercício intelectual, mas sim uma exploração criativa e fortemente solidária, que acolheu e promoveu a reflexão individual e a construção compartilhada de significados em/sobre um contexto desafiador e circunstâncias, com frequência, delicadas. Assim, em uma perspectiva mais ampla, a experiência constitui-se em um exemplo de como a reflexão a partir de narrativas distópicas pode se tornar um alicerce para a humanização, a resistência e, quiçá, a esperança.

Palavras-chave: educação superior na pandemia; distopia; ficção científica; formação de pesquisadores

Referências

AQUINO, J.G.; RIBEIRO, C. (Org.). A Educação por vir: experiências com o cinema. São Paulo: Cortez, 2011.

AUTOFAC (Temporada 1, ep. 8). Electric Dreams [Seriado]. Direção: Peter Horton. Podução: Channel 4 Television Corporation e Sony Pictures Television, 2017. 1 vídeo (51 min).

COECKELBERGH, M. Antropologias do monstro e tecnologia: máquinas, ciborgues e outras ferramentas tecno-antropológicas. In: BANNELL, R.I.; MIZRAHI, M.; FERREIRA, G.M.S. (Org.) Deseducando a educação: mentes, materialidades e metáforas. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio, no prelo.

DICK, P.K. Autofab. In: DICK, P.K. Electric Dreams. Trad. Daniel Luhmann. São Paulo: Aleph, 2017 [1955].

FERREIRA, G.M.S. et al. Estratégias para resistir às resistências: experiências de pesquisa e docência em Educação e Tecnologia. e-Curriculum, v. 18, n. 2, p. 994-1016, 2020. Disponível em: < https://doi.org/10.23925/1809-3876.2020v18i2p994-1016 >. Acesso em: 15 jan. 2021.

HARAWAY, D. O manifesto ciborgue. In: Tadeu, T. (Org.) Antropologia do ciborgue. As vertigens do pós-humano. Trans. Tomaz Tadeu. 2a ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2009 [1991].

HUXLEY, A. Admirável Mundo Novo. Trad. Vidal de Oliveira e Lino Vallandro. Porto Alegre: Ed. Globo, 1979 [1921].

LEMOS, D.C.A. (Org.) Distopias e Educação. Entre ficção e ciência. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2016.

METROPOLIS. Direção: Fritz Lang.  Produção: Erich Pommer. Alemanha / Finlândia: Universum Film / Yleisradio, 1927/2010. 1 DVD (153 min.).

POSTMAN, N. Amusing ourselves to death. Public discourse in the age of show business. 20th anniversary edition. Nova York; Londres: Penguin, 2005 [1985].

ROSADO, L.A.S. et al. De Metropolis a Matrix: arte e filosofia na formação de pesquisadores em educação. Leitura: Teoria e Prática, v. 33, n. 54, p. 97-110, 2015. Disponível em: < https://ltp.emnuvens.com.br/ltp/article/view/371/272 >. Acesso em 15 jan. 2021.

SHELLEY, M. Frankenstein, ou o Prometeu moderno. Trad. Bruno Gambarotto. São Paulo: Hedra, 2013 [1818].

Os slides da apresentação podem ser baixados neste link.

Infelizmente, meu parceiro nessa aventura de trabalho com filmes e livros, o Prof. Márcio Lemgruber, não conseguiu estabilizar sua conexão à Internet na hora da sessão e, assim, não conseguiu participar, mas eu e Kadja Vieira, mestranda no DEdTec, fizemos a apresentação. Kadja criou o layout para os slides, deixando apenas alguns detalhes para eu finalizar, pois já tínhamos aproveitado a primeira sessão de discussão do grupo neste semestre para organizar as ideias, até porque há muita gente ingressando no grupo agora e achei importante darmos uma ideia ao pessoal novo sobre os caminhos que trilhamos no ano passado.

As perguntas que recebemos foram bastante interessantes e permitiram que elaborássemos um pouco mais as ideias, tanto sobre a experiência em si, quanto sobre as pesquisas em andamento. Gostaria, porém, de dar destaque às respostas dadas por minhas orientandas, que mostraram como a experiência tem sido, de fato, produtiva: como orientadora (professora, de forma mais geral), não espero que meus alunos saiam pelo mundo repetindo o que digo (aqui lembro sempre do amigo Alexandre Rosado, com quem compartilho um horror a sectarismos acadêmicos), mas que se apropriem das ideias com as quais têm contato por meu intermédio e, principalmente, que as questionem sempre. As palavras das três – Kadja, Juliana e Cristal – sugeriram que estamos mesmo a caminhar dessa forma, o que me deixou bastante satisfeita.

Quero também ressaltar o papel fundamental do Prof. Márcio no processo que tem permitido que nosso espaço de discussão vá se constituindo como um espaço livre, protegido, acolhedor e fortemente dialógico: temos uma crença compartilhada de que é mais importante dizer algo sobre o que alguém disse do que simplesmente repetir o que já foi dito, sempre, obviamente, de forma consistente com o momento de formação de cada um. Por outro lado, não abandonamos o papel que nos cabe, como docentes, no sentido de dar apoio e direcionamentos possíveis a cada um que embarque na construção desse caminho que pensamos ser a criticidade.

Tem sido um privilégio estar com ele e com todos que escolhem permanecer no grupo, e é desse estar junto, mesmo que on-line, que a esperança vai se nutrindo – como disse o escritor Ítalo Calvino no fechamento de seu maravilhoso As Cidades Invisíveis,

Inovação e/ou gourmetização na educação

Fazendo uma faxina geral em meus espaços de armazenagem, eis que encontro uma postagem contendo apenas um link, um envelope praticamente vazio, esquecido na pasta de rascunhos há muitos meses. Este vídeo me havia passado na newsfeed do Facebook, e, naquele momento, eu estava engajada em uma reflexão sobre “inovação na educação”. Esse é um assunto que, no geral, acho meio tedioso (qualquer coisa que sugira proselitismo do novo me entedia), e o vídeo apareceu em um momento oportuno para me distrair.

Para mim, não é uma questão de ser contra a favor da “inovação na educação” (o que quer que isso signifique para quem isso significa algo), mas sim de questionar as defesas exageradamente otimistas da ideia (e os ataques a ela também). Para mim, o vídeo seria um excelente disparador de uma discussão sobre o assunto, que deveria integrar exemplos diversos de “gourmetização” de práticas até tradicionais, “(re)empacotadas” e “embrulhadas” com novos rótulos, para maximizar as vendas…

Fica então registrado o link.