Encontro inaugural do projeto *Educação, tecnologia e filosofia: diálogos interdisciplinares*

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Tivemos na última quinta (29/08/2019) o primeiro encontro de grupos de pesquisa no escopo do projeto “Educação, Tecnologia e Filosofia: diálogos interdisciplinares”. O projeto envolve os grupos Filosofia da Tecnologia, coordenado pelo prof. Edgar Lyra, do Dept. de Filosofia da PUC-Rio, Formação Docente e Tecnologias, ForTec, coordenado pela profa. Magda Pischetola, do Dept. de Educação da PUC-Rio, e o DEdTec.

Apoiado pelo Instituto de Estudos Avançados em Humanidades, IEAHu, do Centro de Teologia e Ciências Humanas, CTCH, da PUC-Rio, o projeto objetiva

avançar na compreensão e reformulação dos problemas concernentes a uma educação atenta à presença maciça da tecnologia, lançando as bases de sustentação para um espaço interdisciplinar dedicado à discussão de questões pertinentes à relação entre a educação e a tecnologia.

Além dos três coordenadores de grupo, estiveram presentes orientandos de mestrado, doutorado e IC, bem como um dos membros externos do DEdTec, o Prof. Alexandre Rosado, do INES/DESU, que lá coordena o grupo de pesquisas Educação, Mídias e Comunidade Surda e o Mestrado Profissional em Educação Bilíngue, recentemente aprovado pela CAPES (e com inscrições abertas para o primeiro processo seletivo). A Profa. Magda, que está fazendo seu pós-doc no Departamento de Comunicação da Universidade de Copenhague, Dinamarca, se juntou a nós por webconferência.

Inicialmente, cada um de nós coordenadores apresentou a proposta de seu respectivo grupo e, com relação ao DEdTec, falei um pouco mais sobre o projeto corrente. Partimos, então, para uma rodada de apresentações, em particular, das pesquisas dos doutorandos, seguida de discussão de questões e ideias que foram surgindo organicamente. Por fim, compartilhamos sugestões de como poderão ser estruturados os próximos encontros.

A partir dessa conversa, a Profa. Magda sintetizou, em três linhas temáticas, os interesses compartilhados entre os três grupos:

  1. Projeções de futuros imaginados a partir das tendências tecnológicas ditas “de ponta” (por exemplo, Big Data e Inteligência Artificial), em outras palavras, a futurologia (o artigo da Wikipédia oferece uma lista de autores, mas, como sempre, o artigo da Wikipedia – inglês – traz muito mais, inclusive um questionamento sobre o status da futurologia: ciência? Pseudociência? Gênero literário?);
  2. Linguagens, discursos e metáforas: aqui incluímos a Retórica (interesse do Prof. Edgar), Teorias do Discurso (Profa. Giselle), Teoria da Argumentação de Perelman/Olbrecths-Tyteca (Prof. Márcio Lemgruber, que, infelizmente, não pôde participar dessa primeira reunião) e, em particular, o papel da metáfora nessas vertentes teóricas;
  3. Por fim, um questionamento (de cunho mais utilitário, talvez): como lidar com a precariedade e as incertezas que o avanço das tecnologias digitais está a criar? A Profa. Magda, em particular, tem trabalhado em seu grupo com a perspectiva das teorias da complexidade, em particular, a partir do trabalho de Edgar Morin, que inspirou seu livro A sala de aula como ecossistema: tecnologias, complexidade e novos olhares para a educação, lançado recentemente pela Editora PUC-Rio.

Nos próximos dias, deveremos conversar novamente para fechar os planos para a continuação das discussões, o que incluirá uma troca de sugestões de leituras entre os grupos, incluindo produções próprias. Oportunamente postarei updates sobre o desenrolar desse trabalho.

Ficou bastante claro que precisaremos prestar muita atenção aos nossos usos de linguagem. Como bem destacou o Prof. Edgar, diálogos interdisciplinares (intradisciplinares também, com frequência) podem ser difíceis e confusos – precisaremos construir cuidadosamente uma base ou território compartilhado para que sejamos produtivos.

Três documentários interessantes

Estou sempre em busca de audiovisuais novos para usar com os meus alunos, e os três documentários que vou listar aqui são bastante interessantes. Os três estão disponíveis no catálogo nacional da Netflix.

A primeira recomendação é a produção mais recente: Privacidade hackeada (do original The Great Hack, 2018). Este documentário reconta o escândalo em torno da empresa Cambridge Analytica a partir de entrevistas com alguns atores centrais envolvidos no caso, que recebeu uma cobertura aprofundada do jornal britânico The Guardian.

Veja, a seguir, o trailer oficial legendado:

As falas da jornalista Carole Cadwalladr merecem destaque. Nesse espírito, vale, também, assistir a sua palestra TED que explora o papel da plataforma de redes sociais Facebook no processo Brexit. Aqui está, com legendas em português:

A segunda recomendação é Eis os delírios do mundo conectado (do original Lo and behold: reveries of the connected world, 2016), do cineasta alemão Werner Herzog. Também a partir de múltiplas entrevistas, Herzog explora o “impacto” da Internet no olhar de engenheiros (alguns dos entrevistados são figuras importantes dos primórdios da criação da rede – por exemplo, Ted Nelson), cientistas de diversas especialidades e pessoas que relatam efeitos (a maioria, terríveis) da Internet em suas vidas.

Por fim, sugiro Está tudo nos números (do original Prediction by the numbers – 2018). O programa explora a noção de se fazer previsões a partir de dados numéricos usando, em particular, modelos probabilísticos e estatísticos. Para quem tem um olhar mais crítico, será preciso dar um razoável desconto pelo “ufanismo matemático” (lá no final, a previsão é que a matemática continuará a mostrar os caminhos para a humanidade…). Falando (exagerando…) sobre desenvolvimentos de ponta – machine learning e deep learning possibilitados pelo processamento de Big Data – o entrevistado é Sebastian Thrun, que também conversa com Herzog em Eis os delírios do mundo conectado.

Maus argumentos

Estava preparando material para aulas, que começam na semana que vem, e, buscando algo interessante para dar o tom no primeiro dia, resgatei este livrinho, que comprei na finada (RIP) livraria Cultura do Centro do Rio.

Para uma disciplina de introdução à pesquisa educacional, escolhi usar o material relativo à falácia da “generalização precipitada”. A explicação remete a Alice no País das Maravilhas:

Alice tinha ido à praia apenas uma vez na vida. E tinha chegado à conclusão de que, em qualquer lugar do litoral inglês, você encontraria cabines de banho, crianças cavando a areia com uma pá, uma fileira de casas de veraneio e, atrás disso tudo, uma estação de trem.

Esta aí uma falácia das mais comuns nos discursos sobre Educação e Tecnologia.

“Personalização é o oposto de privacidade”

É o que diz Shoshana Zuboff na entrevista a seguir, que explora ideias centrais do seu livro The Age of Surveillance Capitalism (Nova Iorque: Public Affairs, 2019) (“A era do capitalismo da vigilância” – ainda sem tradução por aqui):

Outros críticos – como o bielorusso Evgeny Morozov – já vêm dizendo a mesma coisa há tempos, mas (pelo que sei) Zuboff é a primeira autora a nos oferecer uma discussão aprofundada sobre o funcionamento dessa nova forma de capitalismo.

É nesse contexto que a EdTech – com suas plataformas de aprendizagem adaptativa, aprendizagem customizada e aprendizagem personalizada – opera.

Número especial da revista *Learning, Media and Technology*

Acaba de ser lançado o volume 44, número 3, da revista Learning, Media and Technology, LMT, organizado por Michael Gallagher e Jeremy Knox com o título Global Technologies, Local Practices.

O número contém 11 artigos escritos por autores baseados, predominantemente, no “Sul global”, conforme a proposta da chamada original lançada em 2018. Eis o sumário:

1 – Global technologies, local practices – Michael Gallagher & Jeremy Knox

2 – Global-local divides and ontological politics: feminist STS perspectives on mobile learning for community health workers in Kenya – Jade Vu Henry, Martin Oliver & Niall Winters

3 – De-coding or de-colonising the technocratic university? Rural students’ digital transitions to South African higher education – Sue Timmis & Patricia Muhuru.

4 – WhatsApp use among African international distance education (IDE) students: transferring, translating and transforming educational experiences – Clare Madge, Markus Roos Breines, Mwazvita Tapiwa Beatrice Dalu, Ashley Gunter, Jenna Mittelmeier, Paul Prinsloo & Parvati Raghuram

5 – Southern agency and distance education: an ethnography of open online learning in Dilli, Timor-Leste – Monty King, Martin Forsey & Mark Pegrum

6 – Young black women curate visual arts e-portfolios: negotiating digital disciplined identities, infrastructural inequality and public visibility – Travis Noakes

7 – Great Expectations: a critical perspective on Open Educational Resources in Brazil – Giselle Martins dos Santos Ferreira & Márcio Silveira Lemgruber

8 – An exploration of agency in the localisation of open educational resources for teacher development – Freda Wolfenden & Lina Adinolfi

9 – Refugees and online education: students perspectives on need and support in the context of (online) higher education – Belma Halkik & Patricia Arnold

10 – Digital neocolonialism and massive open online courses (MOOCs): colonial pasts and neoliberal futures – Taskeen Adams

11 – The postdigital challenge of redefining academic publishing from the margins – Petar Jandric & Sarah Hayes.

Acabo de baixar os artigos para ler nos próximos dias (infelizmente, a LMT é paga – e muito bem pagam, por sinal) – a revista está catalogada no Portal de Periódicos da CAPES, mas o acesso depende de assinatura. Tentarei postar resumos curtos aqui.

Alguns dos artigos prometem discutir assuntos que têm estado “no radar” do DEdTEc – novas formas de colonialismo no universo da Educação Aberta e, sobretudo, a partir de processos de datificação, e teorização feminista – mas todos, sem exceção, representam visões periféricas da Educação e Tecnologia.

Por fim… sim, o número inclui um artigo meu e do Márcio Lemgruber – mais um produto de um #orgulhodeparceria! Temos alguns e-prints gratuitos para distribuir – entre em contato e lhe enviaremos.

Educação e Tecnologia: utopias, distopias e metáforas

No semestre que vem, darei uma disciplina de mestrado/doutorado intitulada Educação e Tecnologia: utopias, distopias e metáforas. Compartilho, abaixo, a proposta preliminar – estou ainda matutando sobre os detalhes do planejamento aula-a-aula para montar o programa que preciso colocar no sistema da instituição.

As possibilidades são muitas (a ficção científica me acompanha desde a adolescência) – há algum tempo, venho selecionando livros, filmes e séries que leio/assisto e me remetem a questões relevantes à Educação e Tecnologia. Já tive algumas experiências de ensino colaborativo nessa direção – um dos resultados foi um artigo de 2015 – e continuo a usar material dessa natureza com meus alunos, inclusive da graduação. Mais recentemente, reli Os Despossuídos e A mão esquerda da escuridão, ambos da escritora Ursula le Guin e ambos lidos há mais décadas do que quero contar, e comecei a pensar em novas formas de organizar e explorar mais o material, mas isso é uma outra história…

Por hora, fica a proposta.

Educação e Tecnologia: utopias, distopias e metáforas

EMENTA: Leituras críticas da relação entre a educação e a tecnologia a partir de utopias,  distopias e metáforas: Tecnologia educacional e ideologia. Metáforas conceituais em perspectiva crítica. Metáforas conceituais da tecnologia educacional. A ficção científica como metáfora, representação e crítica. Questões atuais relativas às tecnologias digitais e cenários da ficção distópica – concepções de educação; ensino; aprendizagem; sujeitos e objetos da educação; privacidade e vigilância em contextos educacionais.

Bibliografia principal

AQUINO, Júlio G; RIBEIRO, Cintya R. (Org.) A Educação por vir: experiências com o cinema. São Paulo: Cortez, 2011.

FERREIRA, Giselle M. S.; LEMGRUBER, Márcio S. Tecnologias educacionais como ferramentas: considerações críticas sobre uma metáfora fundamental. EPAA, v. 26, n. 112, p.  1-15, 2018. Disponível em: https://epaa.asu.edu/ojs/article/view/3864/2124.

FERREIRA, Giselle M. S.; ROSADO, L. A.; CARVALHO, J. S. (Org.). Educação e Tecnologia: abordagens críticas. Rio de Janeiro: SESES/UNESA, 2017. Disponível em: https://ticpe.files.wordpress.com/2017/04/ebook-ticpe-2017.pdf.

HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo. Trad. Lino Vallandro e Vidal Serrano. 22ª ed. São Paulo: Globo, 2014.

LE GUIN, Ursula. Os despossuídos. Trad. Danilo Lima de Aguiar. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978.

LEMGRUBER, Márcio S.; FERREIRA, Giselle M. S.Metáforas da Tecnologia Educacional. Educação em Foco (UFJF), v. 23, p. 15-38, 2018. Disponível em: http://dx.doi.org/10.22195/2447-5246v23n120183351.

LEMGRUBER, Márcio S.; OLIVEIRA, Renato José de. Argumentação e Educação: da ágora às nuvens. In: LEMGRUBER, M. S.; OLIVEIRA, R. J. (Org.) Teoria da Argumentação e Educação (23-55). Juiz de Fora: Editora UFJF, 2011.

LEMOS, Daniel C. de A. (Org.) Distopias e Educação. Entre ficção e ciência. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2016.

LUPTON, Deborah. Digital Sociology. London: Routledge, 2015.

ORWELL, George. 1984. Trad. Alexandre Hubner e Heloisa Jahn. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

SELWYN, Neil. Distrusting Educational Technology. Ed. para Kindle. Londres: Routledge, 2014.

Audiovisual

BROOKER, Charlie. Black Mirror. Seriado Netflix, 2015-.

KUBRICK, Stanley, 2001 Uma odisseia no espaço. Metro-Goldwyn Meyer, 1968.  

SCOTT, Ridley. Blade Runner. Warner Bros. Pictures, 1982.

THE WASCHOWSKIS. A Matrix. Warner Bros. Pictures, 1999.

Bibliografia complementar

CHARTERIS-BLACK, Jonathan. Corpus Approaches to Critical Metaphor Analysis. Londres: Palgrave Macmillan, 2004.

CRUZ, Edgar G. Las metáforas de Internet. Barcelona: Editorial UOC, 2007.

DUSEK, Val. Filosofia da Tecnologia. São Paulo: Loyola, 2009.

GALLO, Sílvio; VEIGA-NETO, Alfredo. (Org.) Fundamentalismo e Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.

LAKOFF, George; JOHNSON, Mark. Metáforas da vida cotidiana. São Paulo: EDUC e Mercado das Letras, 2002[1980].

MORGAN, Richard. The Complete SF Collection. Ed. para Kindle. Londres: Gollancz, 2013.

POSTMAN, Neil. Amusing ourselves to death. Public discourse in the age of show business. Edição de comemoração do 20º aniversário da obra. Nova Iorque: Penguin, 2005[1985].

SELWYN, Neil. Education and Technology: key issues and debates. 2ª. Ed. Edição para Kindle. Londres: Bloomsbury, 2016.

SHELLEY, Mary. Frankenstein. Trad. Bruno Gambarotto. 1ª. Ed. São Paulo: Hedra, 2013.

STEFIK, M. Internet Dreams. Archetypes, myths and metaphors. Cambridge, MA: MIT Press, 2001[1996]

Audiovisual complementar

JUDGE, Mike; ALTSCHULER, John; KRINSKY, Dave. Silicon Valley. Seriado HBO, 2014-.

KALOGRADIS, Laeta. Altered Carbon. Seriado Netflix, 2018-.

NOLAN, Jonathan; JOY, Lisa. Westworld. Seriado HBO, 2016-.

SHYAMALAN, M. Night. A Vila. Touchstones Pictures, 2004.

Para começo de conversa…

Levei um tempo razoável para construir as bases deste espaço. Mas finalmente, como a coisa aqui parece estar tomando corpo, mesmo que lentamente, aproveito esses dias ainda sem aulas para colocar o site no ar .

Nesta postagem inaugural (!), achei que caberia trazer algo que já desse uma ideia dos tipos de materiais que serão publicados por aqui. Compartilho, então, os slides de um minicurso do X Seminário Redes da UERJ, que ministrei no início do mês com meus colegas Márcio, Alexandre e Jaciara.

O minicurso abordou algumas ideias básicas, porém não triviais: uma introdução, o começo de uma (longa) conversa.