Metáforas: o criador nos ossos da criatura?

O que tricotar nos diz sobre a aprendizagem móvel?
https://cogdog.github.io/edtechaphors/

Segundo George Lakoff e Mark Johnson em Metáforas da Vida Cotidiana, metáforas são mapeamentos que conectam um domínio fonte a um domínio alvo: por exemplo, uma metáfora conhecida na área da Educação é a da “educação bancária”, que associa o processo de ensinar (domínio alvo) ao ato de fazer um depósito bancário (domínio fonte). Meu projeto de pesquisa atual utiliza essa noção como um de seus eixos teóricos fundantes, pois, nessa concepção, metáforas têm múltiplas implicações (epistemológicas, ontológicas e políticas), ou seja, não são meros ornamentos.

Em nosso (grupo de autores – não é o detestável “nós da majestade”) artigo Metaphors we’re colonised by? The case of data-driven technologies in Brazil (clique aqui para baixar uma e-print gratuita – ainda há – ou aqui para baixar um pre-print), discutimos algumas metáforas da EdTech (Big Data, especificamente), concluindo o texto com a ideia de que, se Borges estiver certo em sua sugestão que a história universal seria a história de diferentes formas tomadas por algumas metáforas, precisamos resgatar ou criar outras metáforas, distintas das que identificamos em associação à temática do estudo.

Eis que, coincidentemente, Martin Weller, meu colega de tempos da Open University, criou e instalou recentemente em seu blog um gerador de metáforas para a EdTech! A princípio, pensei que se tratava de uma iniciativa de crowdsourcing (que daria um belíssimo projeto), mas não: é o app que sugere aleatoriamente mapeamentos entre um domínio fonte e um domínio alvo. Uma segunda versão do app está aqui e comentada aqui.

Como o código do app é curto e simples, é bem fácil ver com clareza como as escolhas do programador estão embutidas no algoritmo – essa não é uma ideia fácil de discutir com pessoas que nunca tiveram qualquer experiência de programação, e um exemplo “tangível” ajuda. O fragmento de print de tela abaixo mostra o trecho onde o programa define as opções: como domínios alvo, rótulos da EdTech (learning analytics, VLE, blockchain, etc.); como domínios fonte, ideias, coisas e atividades (preparar um bolo, uma planta, correr uma maratona, etc.).

Código completo aqui

As opções de domínio fonte, especificamente, sugerem interesses do programador (ao menos, estão em seu radar) – poderiam ser outras inteiramente diferentes (talvez eu usasse categorias relacionas a música, lugares, enfim, coisas que me interessam). As opções do domínio alvo, as categorias da EdTech, também poderiam ser outras – minimamente, a lista poderia ser ampliada.

Nesse caso, não fica bem visível o criador nos ossos da criatura?

Existem muitas outras metáforas no universo da computação – a começar pelas ideias de “área de trabalho”, “pastas”, “arquivos”, só para mencionar as mais comuns e já inteiramente naturalizadas. É sempre interessante desnaturalizá-las e, nesse sentido, a brincadeira de Martin, ao conectar domínios tão distintos, permite destacar sua natureza arbitrária e nada universal: metáforas revelam especificidades de um contexto enquanto tendem a se disseminar e enquadrar nossas formas de perceber e pensar em outros.

e-prints gratuitas de artigos recém-publicados!

Finalmente consegui acessar minha conta no sistema da Taylor & Francis Online e retirar de lá os links que oferecem e-prints gratuitos dos nossos artigos publicados recentemente na revista Learning, Media and Tecnology.

Então, as primeiras 50 pessoas que clicarem poderão acessar os artigos sem custo!

FERREIRA et al (2019) Metaphors we’re colonised by? The case of data-driven technologies in Brazil – clique aqui

FERREIRA & LEMGRUBER (2019) Great Expectations: a critical perspective on Open Educational Resources in Brazil – clique aqui.

Se você clicar nos links e as e-prints já estiverem esgotadas, poderá acessar as versões pré-publicação em meu perfil na plataforma academia.edu ou aqui (Metaphors) e aqui (Great Expectations). Versões com formatação mais agradável podem ser baixadas do perfil de Alexandre Rosado no academia.edu.

Boas leituras!

Educação e Tecnologia: utopias, distopias e metáforas

No semestre que vem, darei uma disciplina de mestrado/doutorado intitulada Educação e Tecnologia: utopias, distopias e metáforas. Compartilho, abaixo, a proposta preliminar – estou ainda matutando sobre os detalhes do planejamento aula-a-aula para montar o programa que preciso colocar no sistema da instituição.

As possibilidades são muitas (a ficção científica me acompanha desde a adolescência) – há algum tempo, venho selecionando livros, filmes e séries que leio/assisto e me remetem a questões relevantes à Educação e Tecnologia. Já tive algumas experiências de ensino colaborativo nessa direção – um dos resultados foi um artigo de 2015 – e continuo a usar material dessa natureza com meus alunos, inclusive da graduação. Mais recentemente, reli Os Despossuídos e A mão esquerda da escuridão, ambos da escritora Ursula le Guin e ambos lidos há mais décadas do que quero contar, e comecei a pensar em novas formas de organizar e explorar mais o material, mas isso é uma outra história…

Por hora, fica a proposta.

Educação e Tecnologia: utopias, distopias e metáforas

EMENTA: Leituras críticas da relação entre a educação e a tecnologia a partir de utopias,  distopias e metáforas: Tecnologia educacional e ideologia. Metáforas conceituais em perspectiva crítica. Metáforas conceituais da tecnologia educacional. A ficção científica como metáfora, representação e crítica. Questões atuais relativas às tecnologias digitais e cenários da ficção distópica – concepções de educação; ensino; aprendizagem; sujeitos e objetos da educação; privacidade e vigilância em contextos educacionais.

Bibliografia principal

AQUINO, Júlio G; RIBEIRO, Cintya R. (Org.) A Educação por vir: experiências com o cinema. São Paulo: Cortez, 2011.

FERREIRA, Giselle M. S.; LEMGRUBER, Márcio S. Tecnologias educacionais como ferramentas: considerações críticas sobre uma metáfora fundamental. EPAA, v. 26, n. 112, p.  1-15, 2018. Disponível em: https://epaa.asu.edu/ojs/article/view/3864/2124.

FERREIRA, Giselle M. S.; ROSADO, L. A.; CARVALHO, J. S. (Org.). Educação e Tecnologia: abordagens críticas. Rio de Janeiro: SESES/UNESA, 2017. Disponível em: https://ticpe.files.wordpress.com/2017/04/ebook-ticpe-2017.pdf.

HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo. Trad. Lino Vallandro e Vidal Serrano. 22ª ed. São Paulo: Globo, 2014.

LE GUIN, Ursula. Os despossuídos. Trad. Danilo Lima de Aguiar. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978.

LEMGRUBER, Márcio S.; FERREIRA, Giselle M. S.Metáforas da Tecnologia Educacional. Educação em Foco (UFJF), v. 23, p. 15-38, 2018. Disponível em: http://dx.doi.org/10.22195/2447-5246v23n120183351.

LEMGRUBER, Márcio S.; OLIVEIRA, Renato José de. Argumentação e Educação: da ágora às nuvens. In: LEMGRUBER, M. S.; OLIVEIRA, R. J. (Org.) Teoria da Argumentação e Educação (23-55). Juiz de Fora: Editora UFJF, 2011.

LEMOS, Daniel C. de A. (Org.) Distopias e Educação. Entre ficção e ciência. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2016.

LUPTON, Deborah. Digital Sociology. London: Routledge, 2015.

ORWELL, George. 1984. Trad. Alexandre Hubner e Heloisa Jahn. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

SELWYN, Neil. Distrusting Educational Technology. Ed. para Kindle. Londres: Routledge, 2014.

Audiovisual

BROOKER, Charlie. Black Mirror. Seriado Netflix, 2015-.

KUBRICK, Stanley, 2001 Uma odisseia no espaço. Metro-Goldwyn Meyer, 1968.  

SCOTT, Ridley. Blade Runner. Warner Bros. Pictures, 1982.

THE WASCHOWSKIS. A Matrix. Warner Bros. Pictures, 1999.

Bibliografia complementar

CHARTERIS-BLACK, Jonathan. Corpus Approaches to Critical Metaphor Analysis. Londres: Palgrave Macmillan, 2004.

CRUZ, Edgar G. Las metáforas de Internet. Barcelona: Editorial UOC, 2007.

DUSEK, Val. Filosofia da Tecnologia. São Paulo: Loyola, 2009.

GALLO, Sílvio; VEIGA-NETO, Alfredo. (Org.) Fundamentalismo e Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.

LAKOFF, George; JOHNSON, Mark. Metáforas da vida cotidiana. São Paulo: EDUC e Mercado das Letras, 2002[1980].

MORGAN, Richard. The Complete SF Collection. Ed. para Kindle. Londres: Gollancz, 2013.

POSTMAN, Neil. Amusing ourselves to death. Public discourse in the age of show business. Edição de comemoração do 20º aniversário da obra. Nova Iorque: Penguin, 2005[1985].

SELWYN, Neil. Education and Technology: key issues and debates. 2ª. Ed. Edição para Kindle. Londres: Bloomsbury, 2016.

SHELLEY, Mary. Frankenstein. Trad. Bruno Gambarotto. 1ª. Ed. São Paulo: Hedra, 2013.

STEFIK, M. Internet Dreams. Archetypes, myths and metaphors. Cambridge, MA: MIT Press, 2001[1996]

Audiovisual complementar

JUDGE, Mike; ALTSCHULER, John; KRINSKY, Dave. Silicon Valley. Seriado HBO, 2014-.

KALOGRADIS, Laeta. Altered Carbon. Seriado Netflix, 2018-.

NOLAN, Jonathan; JOY, Lisa. Westworld. Seriado HBO, 2016-.

SHYAMALAN, M. Night. A Vila. Touchstones Pictures, 2004.