Leitura do fim de semana (furando a fila…)

Chegou ontem (fresquinho do forno e ainda em fase de pré-venda por aqui) o novo livro de Neil Selwyn, Should Robots replace Teachers?, publicado pela Polity.

A contracapa diz o seguinte (tradução livre):

Desenvolvimentos em AI [Inteligência Artificial] e Big Data estão mudando a natureza da educação. Contudo, as implicações dessas tecnologias para a profissão docente são incertas. Enquanto a maior parte dos educadores permanece convencida da necessidade de professores humanos, para além dessa classe de profissionais antecipa-se uma reinvenção da docência e da aprendizagem.

A partir de uma análise de desenvolvimentos tecnológicos tais como robôs-professores autônomos, sistemas de tutoria inteligentes, Learning Analytics [Analíticas da Aprendizagem] e tomada de decisão automatizada, Neil Selwyn ressalta a premência de discussões detalhadas sobre a capacidade a AI replicar qualidades sociais, humanas e cognitivas do professor humano. O autor conduz a discussão sobre AI e educação no domínio dos valores, julgamentos e política, defendendo, basicamente, que a integração de qualquer tecnologia na sociedade precisa ser apresentada como uma escolha.

Além de um prefácio curtinho, o livro tem cinco capítulos:

  • AI, robótica e a automação da docência
  • Robôs na sala de aula
  • Tutoria inteligente e assistentes pedagógicos
  • Tecnologias de “bastidores”
  • Revitalizando a docência para a era da AI

Selwyn é bem conhecido como um crítico sagaz dos discursos exagerados em torno da dita “potência” da tecnologia, e o posicionamento da tecnologia como escolha é algo que permeia seu trabalho. Como diz ele no final do prefácio, “não podemos saber ao certo o que acontecerá, mas deveríamos, ao menos, ter clareza sobre o que preferiríamos que acontecesse”.

Vou tentar dar uma diagonal rápida neste final de semana e postar alguns comentários sucintos – e assim, foi-se o planejamento prévio…



Nem otimista, nem pessimista

Nunca fui diretamente acusada de “tecnofóbica e ludita”, mas já ouvi, repetidamente, que sou “pessimista”. Obviamente não dá para separar ideias de afetos, mas, de fato, são muito fortes os sentimentos associados a visões cor-de-rosa das tecnologias digitais, e não é fácil levantar questionamentos do tipo “e se as coisas não forem exatamente como você diz que elas são?”.

Há anos o escritor Evgeny Morozov vem fazendo perguntas nessa linha, e, a partir delas, oferecendo perspectivas diferentes daquilo que o excesso de otimismo com as tecnologias tem encorajado. Suas críticas são cortantes, e seus posicionamentos, controversos. Neste vídeo, por exemplo, ele questiona a dita “potência” da internet como instrumento de democratização e, a partir disso, discute caminhos alternativos para o ciberativismo (a tradução automática aqui não funciona tão bem, mas dá uma ideia):

Seguindo a mesma linha de seus livros To save everything, click here: the folly of technological solutionism (2013) e The net delusion: the dark side of internet freedom (2012) (não acho que tenham sido traduzidos), Big Tech. A Ascensão dos dados e a morte da política traz uma crítica sempre “direto na jugular”, para usar uma metáfora bem gráfica. A curta seção a seguir ilustra a verve do autor:

Nesse espírito, então, para pensar especificamente sobre a educação – para além de dicotomias bem-mal, bom-mau, otimista-pessimista, dentre tantas -,

(…) é preciso que a escrita, a pesquisa e o debate abordem o uso de tecnologia na educação como problemático. Tal perspectiva não significa assumir que a tecnologia é o problema, mas, sim, reconhecer a necessidade de interrogar seriamente o uso da tecnologia da educação. Isso envolve a produção de análises detalhadas e ricas em contexto, engajamento em avaliação objetiva, e dedicação de tempo para investigar qualquer situação em seus aspectos positivos, negativos e toda e qualquer nuance intermediária. Envolve, também, um posicionamento inerentemente cético, ainda que resistente à tentação de incorrer-se em um cinismo absoluto. Adotando a distinção feita por Michel Foucault, isso envolve ver a aplicação de tecnologia na educação como “perigosa”, em vez de “má”, lembrando que qualquer crítica deve sempre resultar em ação, em lugar de inércia.

(Neil Selwyn, p. 89, capítulo 1 neste livro de 2017 – acesso aberto)

Para completar, aqui está o que Foucault disse:

Meu argumento não é que tudo é mau, mas que tudo é perigoso, que não é exatamente a mesma coisa que mau. Se tudo é perigoso, então sempre temos algo a fazer. Então minha posição leva não à apatia mas a um hiperativismo pessimista.

Foucault em entrevista, em Michel Foucault de Hubert Dreyfus e Paul Rabinow, 1983 (há um pdf aqui – em inglês)

e-prints gratuitas de artigos recém-publicados!

Finalmente consegui acessar minha conta no sistema da Taylor & Francis Online e retirar de lá os links que oferecem e-prints gratuitos dos nossos artigos publicados recentemente na revista Learning, Media and Tecnology.

Então, as primeiras 50 pessoas que clicarem poderão acessar os artigos sem custo!

FERREIRA et al (2019) Metaphors we’re colonised by? The case of data-driven technologies in Brazil – clique aqui

FERREIRA & LEMGRUBER (2019) Great Expectations: a critical perspective on Open Educational Resources in Brazil – clique aqui.

Se você clicar nos links e as e-prints já estiverem esgotadas, poderá acessar as versões pré-publicação em meu perfil na plataforma academia.edu ou aqui (Metaphors) e aqui (Great Expectations). Versões com formatação mais agradável podem ser baixadas do perfil de Alexandre Rosado no academia.edu.

Boas leituras!

Metáforas da Educação e Tecnologia: versões de artigos para baixar livremente

Acabo de subir para o meu perfil da plataforma academia.edu as versões aceitas dos artigos publicados recentemente da revista Learning, Media and Technology. As versões são muito próximas aos textos publicados, que necessitam de acesso via assinatura (o preço de artigos isolados é absurdo para nós, nem comentemos sobre isso…).

Se alguém estiver interessado em ler os trabalhos, mas tiver problemas em acessá-los no academia, o material está aqui também: Great Expectations: a critical perspective on Open Educational Resources in Brazil (parceria com Márcio Lemgruber) e Metaphors we’re colonised by? The case of data-driven educational technologies in Brazil (parceria com Alexandre Rosado, Márcio Lemgruber e Jaciara Carvalho).

Estou aguardando um reset da minha senha no sistema da revista (são tantas as senhas, me escapam da memória frequentemente), pois cada um dos autores recebe 50 e-prints para distribuir, mas preciso acessar o sistema para pegar o link pertinente. Em breve, circularei esse link aqui, e as primeiras 50 pessoas a acessarem poderão baixar o artigo na versão publicada pela revista.

Boas leituras!

Metáforas de Big Data, educação e novas formas de colonização: artigo publicado!

Acaba de ser publicado ahead of print o artigo Metaphors we’re colonised by? The case of data-driven educational technologies in Brazil, na revista Learning, Media and Technology. O artigo integrará um número temático organizado por Neil Selwyn e Thomas Hillman, que deverá sair no início de 2020 com o título “Education and Technology into the 2020s: speculative futures”.

A história desse trabalho é um pouco longa, daí a grande alegria que senti ao ver a notificação da editora em minha caixa de correio ontem pela manhã. As ideias começaram a surgir em 2015, foram amadurecendo ao longo de um tempo de discussões e estudos, e resultaram, por fim, no projeto atual formalizado em final de 2017, como resumido aqui. Este artigo, em particular, é fruto de um trabalho cuidadoso com um corpo de dados relativamente extenso e uma literatura que começou a surgir mais ou menos ao mesmo tempo em que íamos progredindo com as análises.

Enfim, aqui está uma versão em português do abstract de nossa proposta inicial:

Este artigo discute questões imbricadas na disseminação de tecnologias educacionais baseadas em dados no Brasil. No país, como em outros locais, a Tecnologia Educacional (TecEdu) continua a ser defendida com base em discursos otimistas que a constroem como uma panaceia para problemas sociais historicamente enraizados. Ainda que algumas dessas tecnologias tenham realmente contribuído para importantes programas de ampliação do acesso à educação nas duas últimas décadas, a defesa do “solucionismo tecnológico”, refletida em políticas públicas que articulam demandas cada vez mais fortes de melhoria de eficiências através da “inovação”, tem apoiado a mercantilização implacável dos sistemas educacionais do país. À medida que corporações transnacionais, discretamente posicionadas, assumem o controle de áreas-chave desses sistemas, ameaçando reestruturar todo o setor, tecnologias educacionais baseadas em dados – e outras noções da TecEdu apresentadas como “soluções” para ditas necessidades educacionais – fornecem o último exemplo em uma série de “novas” ideias ofertadas em um mercado em constante expansão. No entanto, essas ideias tendem a ser importadas e implantadas de maneiras frequentemente inconsistentes com as necessidades locais reais. Adotando como referencial teórico um recorte da literatura que explora implicações culturais e políticas da noção de “metáforas conceituais” proposta por Lakoff e Johnson – metáforas que encapsulam maneiras específicas de perceber, pensar e relacionar-se com o mundo – este artigo discute metáforas-chave em discursos acerca de tecnologias educacionais baseadas em dados no Brasil. Com base em dados empíricos coletados de fontes institucionais, midiáticas e de marketing abertas on-line, bem como literatura acadêmica sobre a política da tecnologia, o artigo analisa maneiras nas quais certas metáforas promovem perspectivas que ignoram a diferença e obscurecem questões mais amplas da educação, reproduzindo, assim, problemas previamente existentes. Considerando que dados estão sendo concebidos como o “óleo” que deverá impulsionar uma educação anacrônica para o futuro, por um lado, e reconhecendo a capacidade local reduzida para (pelo menos) adaptar sistemas importados, por outro, o artigo examina criticamente um cenário em que as metáforas da TecEdu talvez estejam a apoiar novas formas de colonização.

Estamos trabalhando em outros produtos dessa parte da pesquisa para disseminação em português, mas, por hora, disponibilizo a versão aceita para publicação, produzida após duas rodadas de revisão por pareceristas e extensas revisões.

Clique aqui para baixar um pdf do artigo em sua versão aceita para publicação.

Clique aqui para acessar a página da revista relativa ao artigo.

Encontro inaugural do projeto *Educação, tecnologia e filosofia: diálogos interdisciplinares*

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Tivemos na última quinta (29/08/2019) o primeiro encontro de grupos de pesquisa no escopo do projeto “Educação, Tecnologia e Filosofia: diálogos interdisciplinares”. O projeto envolve os grupos Filosofia da Tecnologia, coordenado pelo prof. Edgar Lyra, do Dept. de Filosofia da PUC-Rio, Formação Docente e Tecnologias, ForTec, coordenado pela profa. Magda Pischetola, do Dept. de Educação da PUC-Rio, e o DEdTec.

Apoiado pelo Instituto de Estudos Avançados em Humanidades, IEAHu, do Centro de Teologia e Ciências Humanas, CTCH, da PUC-Rio, o projeto objetiva

avançar na compreensão e reformulação dos problemas concernentes a uma educação atenta à presença maciça da tecnologia, lançando as bases de sustentação para um espaço interdisciplinar dedicado à discussão de questões pertinentes à relação entre a educação e a tecnologia.

Além dos três coordenadores de grupo, estiveram presentes orientandos de mestrado, doutorado e IC, bem como um dos membros externos do DEdTec, o Prof. Alexandre Rosado, do INES/DESU, que lá coordena o grupo de pesquisas Educação, Mídias e Comunidade Surda e o Mestrado Profissional em Educação Bilíngue, recentemente aprovado pela CAPES (e com inscrições abertas para o primeiro processo seletivo). A Profa. Magda, que está fazendo seu pós-doc no Departamento de Comunicação da Universidade de Copenhague, Dinamarca, se juntou a nós por webconferência.

Inicialmente, cada um de nós coordenadores apresentou a proposta de seu respectivo grupo e, com relação ao DEdTec, falei um pouco mais sobre o projeto corrente. Partimos, então, para uma rodada de apresentações, em particular, das pesquisas dos doutorandos, seguida de discussão de questões e ideias que foram surgindo organicamente. Por fim, compartilhamos sugestões de como poderão ser estruturados os próximos encontros.

A partir dessa conversa, a Profa. Magda sintetizou, em três linhas temáticas, os interesses compartilhados entre os três grupos:

  1. Projeções de futuros imaginados a partir das tendências tecnológicas ditas “de ponta” (por exemplo, Big Data e Inteligência Artificial), em outras palavras, a futurologia (o artigo da Wikipédia oferece uma lista de autores, mas, como sempre, o artigo da Wikipedia – inglês – traz muito mais, inclusive um questionamento sobre o status da futurologia: ciência? Pseudociência? Gênero literário?);
  2. Linguagens, discursos e metáforas: aqui incluímos a Retórica (interesse do Prof. Edgar), Teorias do Discurso (Profa. Giselle), Teoria da Argumentação de Perelman/Olbrecths-Tyteca (Prof. Márcio Lemgruber, que, infelizmente, não pôde participar dessa primeira reunião) e, em particular, o papel da metáfora nessas vertentes teóricas;
  3. Por fim, um questionamento (de cunho mais utilitário, talvez): como lidar com a precariedade e as incertezas que o avanço das tecnologias digitais está a criar? A Profa. Magda, em particular, tem trabalhado em seu grupo com a perspectiva das teorias da complexidade, em particular, a partir do trabalho de Edgar Morin, que inspirou seu livro A sala de aula como ecossistema: tecnologias, complexidade e novos olhares para a educação, lançado recentemente pela Editora PUC-Rio.

Nos próximos dias, deveremos conversar novamente para fechar os planos para a continuação das discussões, o que incluirá uma troca de sugestões de leituras entre os grupos, incluindo produções próprias. Oportunamente postarei updates sobre o desenrolar desse trabalho.

Ficou bastante claro que precisaremos prestar muita atenção aos nossos usos de linguagem. Como bem destacou o Prof. Edgar, diálogos interdisciplinares (intradisciplinares também, com frequência) podem ser difíceis e confusos – precisaremos construir cuidadosamente uma base ou território compartilhado para que sejamos produtivos.

Três documentários interessantes

Estou sempre em busca de audiovisuais novos para usar com os meus alunos, e os três documentários que vou listar aqui são bastante interessantes. Os três estão disponíveis no catálogo nacional da Netflix.

A primeira recomendação é a produção mais recente: Privacidade hackeada (do original The Great Hack, 2018). Este documentário reconta o escândalo em torno da empresa Cambridge Analytica a partir de entrevistas com alguns atores centrais envolvidos no caso, que recebeu uma cobertura aprofundada do jornal britânico The Guardian.

Veja, a seguir, o trailer oficial legendado:

As falas da jornalista Carole Cadwalladr merecem destaque. Nesse espírito, vale, também, assistir a sua palestra TED que explora o papel da plataforma de redes sociais Facebook no processo Brexit. Aqui está, com legendas em português:

A segunda recomendação é Eis os delírios do mundo conectado (do original Lo and behold: reveries of the connected world, 2016), do cineasta alemão Werner Herzog. Também a partir de múltiplas entrevistas, Herzog explora o “impacto” da Internet no olhar de engenheiros (alguns dos entrevistados são figuras importantes dos primórdios da criação da rede – por exemplo, Ted Nelson), cientistas de diversas especialidades e pessoas que relatam efeitos (a maioria, terríveis) da Internet em suas vidas.

Por fim, sugiro Está tudo nos números (do original Prediction by the numbers – 2018). O programa explora a noção de se fazer previsões a partir de dados numéricos usando, em particular, modelos probabilísticos e estatísticos. Para quem tem um olhar mais crítico, será preciso dar um razoável desconto pelo “ufanismo matemático” (lá no final, a previsão é que a matemática continuará a mostrar os caminhos para a humanidade…). Falando (exagerando…) sobre desenvolvimentos de ponta – machine learning e deep learning possibilitados pelo processamento de Big Data – o entrevistado é Sebastian Thrun, que também conversa com Herzog em Eis os delírios do mundo conectado.

Maus argumentos

Estava preparando material para aulas, que começam na semana que vem, e, buscando algo interessante para dar o tom no primeiro dia, resgatei este livrinho, que comprei na finada (RIP) livraria Cultura do Centro do Rio.

Para uma disciplina de introdução à pesquisa educacional, escolhi usar o material relativo à falácia da “generalização precipitada”. A explicação remete a Alice no País das Maravilhas:

Alice tinha ido à praia apenas uma vez na vida. E tinha chegado à conclusão de que, em qualquer lugar do litoral inglês, você encontraria cabines de banho, crianças cavando a areia com uma pá, uma fileira de casas de veraneio e, atrás disso tudo, uma estação de trem.

Esta aí uma falácia das mais comuns nos discursos sobre Educação e Tecnologia.

“Personalização é o oposto de privacidade”

É o que diz Shoshana Zuboff na entrevista a seguir, que explora ideias centrais do seu livro The Age of Surveillance Capitalism (Nova Iorque: Public Affairs, 2019) (“A era do capitalismo da vigilância” – ainda sem tradução por aqui):

Outros críticos – como o bielorusso Evgeny Morozov – já vêm dizendo a mesma coisa há tempos, mas (pelo que sei) Zuboff é a primeira autora a nos oferecer uma discussão aprofundada sobre o funcionamento dessa nova forma de capitalismo.

É nesse contexto que a EdTech – com suas plataformas de aprendizagem adaptativa, aprendizagem customizada e aprendizagem personalizada – opera.